O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 1

A Canção de Ilúvatar

No último dezembro chegou aos cinemas de todo o mundo o último filme da Hexalogia do Anel, “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos”, trazendo consigo o triste gosto da despedida da Terra-Média nas telonas. Por ser uma adaptação (e põe adaptação nisso!) do livro, a nova trilogia fez muitos fãs torcerem o nariz, mas não se pode duvidar do seu impacto sobre um novo público, aumentando consideravelmente a procura pelo trabalho original do Professor Tolkien.

Especialmente avesso a alegorias, Tolkien nunca se valeu de nenhuma delas para criar sua Terra-Média. O Professor via esse recurso como uma desonestidade intelectual e achava que alegorias matariam os diferentes níveis de sentido possíveis para um texto e pensava que se por um lado, o autor seria inevitavelmente influenciado por suas vivências no momento da criação (visto que sua fé católica e participação traumática na Batalha de Somme, na 1ª Guerra, foram decisivas na confecção de sua própria obra), por outro o leitor teria o direito de apreciar a história a partir da sua própria experiência e percepção.

tolkien( Tolkien: o autor do mundo de O Hobbit e O Senhor dos Anéis)

Desta forma, muitos de seus fãs se emocionaram e se comoveram de formas distintas com as aventuras de Frodo, Aragorn e cia., tirando suas próprias aplicações pessoais dos princípios que permeiam o legendarium tolkieniano. Um caso famoso é o do mestre da ficção científica, Isaac Asimov, que escreveu artigos estabelecendo analogias entre o Um Anel e o uso da tecnologia.

Sendo impossível escapar da influência daqueles temas que são particularmente queridos pelo nosso próprio coração, confesso que ao vagar por Arda percebo muitos ecos de um texto muito antigo, mas que assim como os de Tolkien só se popularizou mundialmente bem recentemente. Trata-se da Bhagavad-gita, texto seminal da filosofia védica, que resume todos os princípios contidos por trás da prática da yoga. O seu nome pode ser traduzido como a “Canção de Deus” e ele trata da ontologia da alma, sua distinção do corpo material e o processo pelo qual ela pode se conectar a Consciência Suprema.

o-bhagavad-gita-como-ele-e( O Bhagavad-Gita Como Ele É, a tradução mais influente do clássico milenar no ocidente)

Mesmo sendo uma escritura milenar e tendo influenciado diferentes pensadores, como Einstein e Gandhi, a Gita só atingiu plena fama fora da Índia com a publicação da edição conhecida como “Bhagavad-gita Como Ele É”, em 1968. Esta edição contava com o texto original na língua sânscrita, tradução e comentários do maior erudito no tema do século XX, Srila Prabhupada, e foi amplamente apreciada tanto pelos jovens membros do movimento de contra-cultura, como por artistas do quilate de George Harisson e Allen Ginsberg e por acadêmicos, como Thomas Merthon.

Tentarei a seguir fazer algumas pequenas analogias entre os conceitos apresentados na Gita e alguns trechos de “O Hobbit”.

Bilbo

bilbo_baggins_wallpaper_by_ladycyrenius-d7fss80

Bilbo Bolseiro é um pacato e solteiro hobbit, que vive confortavelmente em sua amena toca, desfrutando de boas refeições e da comodidade de um belo cenário bucólico até que é surpreendido pelo mago Gandalf e por uma companhia de treze anões e é posto subitamente em uma aventura que poucos heróis topariam encarar: ir até a perigosa Erebor, a Montanha Solitária, guardada pelo último dos dragões para recuperar o tesouro dos anões.

Os anões já possuíam suficiente força bruta, então um ladino parecia ser uma aquisição considerável para o grupo e como os hobbits possuem uma pequena estatura e são silenciosos e furtivos quando necessário, um deles pareceu ser uma boa escolha. No entanto, avesso a qualquer atividade que interrompa sua rotina tranquila, Bilbo se mostra extremamente contrariado a entrar neste mundo que aparentemente não lhe pertence e para o qual não tem nenhuma aptidão, mas mesmo contra o seu desejo é posto na estrada com os anões e juntos passam por muitos desafios, conhecendo o reino de Rivendell, fugindo das Montanhas Sombrias, escapando da Floresta das Trevas…

E para sua própria surpresa, quando menos espera, Bilbo acaba por se tornar o ladrão que todos esperavam que ele fosse. É dessa forma que ele engana um bando de trolls, derrota aranhas gigantes, ludibria mesmo alguns elfos e esquiva-se do traiçoeiro Gollum. Bilbo chega a encarar o próprio dragão e sobrevive. Por fim, acaba por ser premiado com uma parte do tesouro que havia na montanha.

Da mesma forma que Bilbo, a alma, habitando um corpo com o qual falsamente se identifica, habitua-se com uma monótona e repetitiva existência, sem nem imaginar as aventuras que lhe esperam.

Apesar da própria alma ser eterna, plena de conhecimento e bem-aventurada e da natureza deste corpo efêmero e temporário nada ter a ver consigo, ela acaba por criar vínculos com ele e viver em função de sua manutenção, sem aprender qual é seu verdadeiro propósito. Assim, sem se questionar ela passa seus dias trabalhando para que consiga ter uma casa, uma posição respeitável na sociedade, um emprego estável, entre tantas outras metas que lhe são impostas, mas que na realidade só dizem respeito ao seu corpo. Ignorando suas verdadeiras necessidades, ela artificialmente tenta obter tudo isto, mas nada disso pode preencher suas lacunas e lhe dar verdadeira satisfação. Logo, sem se dar conta a alma fica engessada dentro dos limites da matéria e adormece… Até que depois de muito tempo, ela finalmente se depara com algo que desperta sua espiritualidade e então vê sua antiga vida indo embora e dando lugar a uma nova e excitante jornada.

the-hobbit-an-unexpected-journey-657x341

No começo, é claro, ela se sente desconfortável diante da nova situação, pois não é fácil ter que abandonar tantos conceitos já estabelecidos e se precipitar aonde poucos ousaram ir, mas aos poucos a emoção das pequenas vitórias sobre si mesma e a empolgação das descobertas a respeito do seu próprio eu, da vida que a cerca e da presença constante de Deus em cada situação vão lhe dando confiança para prosseguir.

hobbit-unexpected-journey-extended-edition

De fato, a alma é realmente surpreendente e inconcebível, pois é tão diminuta que não pode ser percebida empiricamente, nem através do mais sofisticado microscópio, mas é justamente ela que dá dinâmica ao corpo, que sem a sua presença não passa de um amontoado de matéria inerte e inconsciente. Esta mesma alma é indissolúvel e imutável, não podendo portanto ser destruída junto com o corpo. E ao se dar conta de sua verdadeira natureza espiritual, a alma já não se sente mais inclinada a frustração, senão que se enche de júbilo e vigor para continuar sua missão.

gandalfsoul2

Obstáculos aparentemente intransponíveis surgem neste caminho, muitos deles mais assustadores do que um exército de orcs. Isso também aconteceu com Bilbo, mas a providência lhe sorriu na forma das Grandes Águias, que resgataram os heróis de um grupo de inimigos, conduzindo-os em segurança até o Rio Anduin, e que apareceram como o maior reforço possível na Batalha dos Cinco Exércitos. Da mesma forma, quando parece encurralada diante de um desafio sobre o qual não tem capacidade de vencer, a alma também pode contar com o valioso toque da mão divina, que muitas vezes se manifesta sobre a forma de inspirações no interior do seu coração, fornecendo-lhe um novo ânimo e uma inovadora percepção da realidade, ou como uma repentina mudança nas situações externas, removendo a alma aventureira de situações perigosas.

gandalf

Ao longo de toda a história, Bilbo vai descobrindo em si um poder que desconhecia e se torna uma peça importante para a salvação de todo o mundo, apesar de seu tamanho pequenino e de sua inexperiência. Ao retornar para o seu querido Bolsão, ele já não é mais o mesmo: as lembranças que guarda consigo o tornam diferente dos demais hobbits. Ele já não pode mais se conformar em gastar seus dias apenas se empanturrando e bebendo com seus amigos em uma estalagem na beira da estrada, distraído entre folguedos esperando a velhice chegar. Pelo contrário, apesar de ainda estar no Condado, ele vive absorto em sonhos e poemas de reinos élficos e de grandiosos homens dos dias antigos.

Igualmente, a alma agora desperta para o milagre que a rodeia já não pode mais se encolher diante da vida e passar seus dias como mais um na multidão. Rica de compreensão espiritual, ainda que esteja aparentemente no mesmo local e praticando as mesmas atividades de antes, ela está fixa em seu novo desígnio: descobrir quem de fato ela é, qual sua origem e o propósito de sua existência.

(Continua…)

Curta nossa página no facebook https://www.facebook.com/pages/Nerd-OMline-%E0%A5%90/693976080707108?fref=ts

Um comentário sobre “O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 1

  1. Um Artigo muitíssimo interessanete, adorei! : D

    Não é uma mera interpretação sem base, é uma verdade análise, a estrutura de O Hobbit espelha a teoria da “Jornada do Herói” do famoso mitólogo Joseph Campbell. O Artigo do Blog Nerd Omline, faz, de modo orgânico e natural ( como uma intuição verdadeira), essa conexão entre a “Jornada do Herói” e a jornada da Alma em busca de iluminação, sob a ótica dos Vedas, as escrituras da Índia Antiga.
    O Autor deste artigo tem uma grande sensibilidade no que tange filosofia espiritual, estórias épicas e Senhor dos Anéis.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s