A LOUCURA DE “MAD MAX” SERÁ O NOSSO FUTURO?

O mundo pós apocalíptico de Mad Max pode se tornar realidade, e mais: ele teria sido profetizado pelas escrituras da Índia Antiga ( os Vedas), da Grécia e de Roma.

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O Apocalipse total! Nas palavras de Mad Max, um “mundo de fogo e sangue”. O resultado é hecatombe nuclear e catástrofe ambiental, que acarreta o genocídio de milhões, destruindo sociedades inteiras e tornando insalubre o próprio planeta Terra. Um mundo com escassez de água, desprovido de flores, frutas e plantas, dominado por gangues sanguinárias lideradas por tiranos saqueadores, um lugar sem espaço para compaixão e para a misericórdia onde apenas os embrutecidos e os animalescos sobrevivem através da crueldade e da exploração. A loucura alucinada é o comportamento aceitável, a violência é a norma, a barbárie impera; um mundo de ruínas.

Esse é um breve resumo do que o espectador encontrará na franquia de filmes Mad Max e no mais recente lançamento “ A Estrada da Fúria”. Com o comprovado sucesso de crítica e bilheteria dos filmes distópicos e pós-apocalípticos (a própria franquia Mad Max, o filme A Estrada, O Livro de Eli etc) parece que há algo que atrai nossas mentes, como uma intuição, em filmes que retratam o futuro como um lugar desolado, composto de sociedades destruídas, com protagonistas tentando manter a pouca humanidade que resta em um ambiente de saques e destruição desenfreada, onde mulheres e crianças são presas fáceis e fanáticos pseudorreligiosos usam a crença não para expandir a consciência das massas, mas para aprisioná-las. Este tema reverbera em outros gêneros, como por exemplo na série sobre zumbis “The Walking Dead” e no mangá cult “Hokuto No Ken”.

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Um futuro a lá “Mad Max” não faz parte apenas do imaginário mitológico de Hollywood. Profecias da Grécia, Roma e da Índia antiga dizem algo surpreendentemente similar sobre o que nos aguarda no futuro. O mito da chamada “Era de Ferro”- uma época futura, decorrente do presente, em que a humanidade entrará em colapso – faz parte das narrativas indianas, gregas, romanas, viking, ameríndias, ou seja, de boa parte do nosso imaginário coletivo. A seguir, vamos expor e comparar a visão futurista de Mad Max com os mitos dos gregos e romanos da antiguidade e das escrituras da Índia Antiga ( Os Vedas).


O Apocalipse de Mad Max: Esperança e Redenção

No início do segundo filme da franquia, “Mad Max: O Guerreiro da Estrada” temos a narração do seguinte prólogo:

“É uma época caótica de sonhos arrasados de uma terra devastada. O mundo era controlado pelo combustível negro; no deserto haviam grandes cidades de tubos e aço, cidades que sumiram arrasadas por razões há muito esquecidas. Duas grandes poderosas nações entraram em guerra e lançaram uma chama que consumiu a todos, sem combustível elas não eram nada, construíram um mundo frágil. As máquinas engasgaram e pararam, seus líderes debateram, debateram e debateram, mas nada podia deter a avalanche. O mundo desabou. Cidades explodiram, o mundo inteirou virou uma pilhagem, uma tempestade de fogo e medo. Homens começaram a se alimentar de homens, nas estradas havia uma linha branca de pesadelos. Só os brutos sobreviviam, gangues tomavam contas das estradas, prontas para guerrear por um tanque de combustível. Nesse turbilhão de decadência, homens comuns eram castigados e esmagados”

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Enquanto o primeiro filme da tetralogia mostra uma atmosfera futurista semi urbana fragmentada, com uma ordem social confusa e caótica – com agentes da lei tão lunáticos quanto os fora da lei, com gangues de criminosos sádicos espalhando o terror em cidades semidesertas e vilarejos – os outros três filmes mostram um ambiente ainda mais inóspito: neles é como se o mundo tivesse virado um grande deserto, com doidos psicóticos e tiranos sanguinolentos – sempre vestindo uma moda punk – dirigindo carros que parecem ter saído do videogame “Carmagedon”; Um verdadeiro cirque-du-soleil de horror surrealista.

Há muitos elementos na série que permitem identificar qual é o futuro concebido pelo diretor George Miller. O deserto é uma imagem tanto literal quanto metafórica, um lugar onde a humanidade entrou não só em colapso no âmbito material ( com escassez dos recursos mais básicos como fontes de energia, água, cultura, educação, interações sociais saudáveis etc), mas também espiritual. No mundo de Mad Max (assim como em outras obras distópicas) a espiritualidade praticamente inexiste. Pode haver até um certo tipo de “religião” como mostrado no recente “A Estrada da Fúria”, mas esta é construída artificialmente por déspotas inescrupulosos com o intuito de manter as massas iludidas e fanáticas, tornando as mais maleáveis à manipulação e aos seus interesses egoístas ( oposto do que prega qualquer linha espiritual autêntica).

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Ademais, de um modo geral, inexiste amizade, lealdade, amor e justiça. Os heróis dos filmes são aqueles que lutam para manter o mínimo dessas qualidades ou para revivê-las. Os heróis são aqueles que se recusam a perder a esperança em um ambiente inóspito, e que buscam a redenção protegendo mulheres, crianças, deficientes físicos e idosos – elementos que necessitam de resguardo em culturas civilizadas – para evitar que eles se tornem presas nas mãos de brutamontes lunáticos. Não por acaso, em todos os últimos três filmes da franquia, o clímax final é constituído de uma fuga em um grande veículo (caminhão ou trem) liderada pelo herói e protagonista Max com o intuito de proteger crianças, mulheres e deficientes físicos das hordas de homens insanos e sanguinários em automóveis mortíferos, verdadeiros pesadelos metálicos em quadro rodas.

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O simbolismo desta cena clímax de perseguição e fuga é crucial. São pessoas tentando proteger a qualquer custo a pouca humanidade que ainda resta no mundo, das garras de tiranos sádicos e amorais de um sistema louco em si mesmo. Esta humanidade simbólica, que necessita ser protegida e sobreviver, é construida através cooperação mútua e mesmo os elementos tidos como os mais vulneráveis da sociedade ( mulheres, crianças, idosos e deficientes físicos) possuem papel ativo na luta. É o embate do que resta da civilização contra a loucura desenfreada. O fato de Max liderar a fuga do caminhão na cena final também é significativo. É o momento dele, como protagonista, buscar a sua redenção e de reacender a esperança, fragilizada pelas memórias amargas do passado. O sucesso não será mais para apenas garantir a sobrevivência de Max, mas para dar um futuro para os indivíduos que ele protege.

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Mad Max segundo o conhecimento da Índia Antiga

O mundo pós-catástrofe de Mad Max tem grande semelhanças com as profecias do mundo antigo. Por exemplo, as escrituras filosóficas e religiosas da Índia Antiga, os Vedas (escritos há 5.000 anos atrás), profetizam que o futuro do planeta Terra se assemelhará com tais filmes apocalípticos. O autor destas escrituras é um avatar ( esta palavra em sânscrito significa “Enviado dos Céus”) chamado de Vyasadeva, um escritor santo e poeta místico que viveu há 3.000 anos antes de Cristo, responsável pela compilação de todos os Vedas conhecidos. Na escritura milenar védica chamada Srimad-Bhagavatam, se descreve que atualmente vivemos na última etapa de um ciclo de quatro eras ( a Terra seria regida por um ciclo de quatro eras cósmicas assim como o ano é regido por um ciclo de quatro estações), a chamada Kali-Yuga ( “a era do vício, era das desavenças” segundo a tradução do sânscrito), uma era de grande turbulência social e insanidade coletiva. De acordo com esta escritura, esta era em que vivemos iniciou-se há 5.000 anos atrás (quando os Vedas foram escritos) e durará ao todo 432.000 anos ( assim como os Maias, os indianos estão entre os povos antigos a ter uma percepção temporal com números colossais, com escalas de tempo, calendários e ciclos cósmicos que chegam a trilhões de anos). Ou seja, com apenas 5.000 anos corridos do total de 432.000 anos de Kali-Yuga, estaríamos apenas nos estágios inicias. Segundo as profecias dos Vedas a humanidade teria à frente mais 327.000 anos de crescente deterioração mental, social, ambiental etc. Em alguns versos do livro sacro Srimad-Bhagavatam afirma-se algumas das características e previsões da Kali-Yuga, a era em que as escrituras afirmam que vivemos:

“Em Kali-yuga, só a riqueza será considerada sinal de bom nascimento, comportamento adequado e boas qualidades. E a lei e a justiça serão aplicadas apenas com base no poder do indivíduo. Homens e mulheres viverão juntos por causa da mera atração superficial. O sucesso nos negócios dependerá de fraudes. A feminilidade e a masculinidade serão julgados segundo a perícia sexual da pessoa. A posição espiritual da pessoa será determinada apenas por símbolos externos. A dignidade do homem será seriamente questionada se ele não tiver um bom salário. E considerar-se-á um intelectual erudito quem for muito esperto em malabarismo verbal. A hipocrisia será aceita como virtude. Será considerado sagrado um lugar que tiver apenas um reservatório de água num local distante, e a beleza será julgada pelo penteado da pessoa. Encher a barriga se tornará a meta da vida, e quem for audacioso será aceito como veraz. Quem conseguir manter a família será considerado hábil, e os princípios religiosos serão observados somente por causa da reputação. A medida que a Terra se apinhar de população corrupta, quem quer que, dentre qualquer das classes sociais, mostrar ser o mais forte, obterá o poder político. Perdendo suas esposas e propriedades para tais governantes avarentos e desumanos, que não se comportarão melhor do que ladrões ordinários, os cidadãos fugirão para as montanhas e florestas. atormentadas pela fome e atingidas pela seca, elas ficarão completamente arruinadas. Os cidadãos sofrerão muito com o frio, vento, calor, chuva e neve. Serão atormentados ainda por desavenças, fome, sede, doença e severa ansiedade. A duração máxima da vida dos seres humanos em Kali-yuga será de cinquenta anos. A maioria dos governantes serão ladrões, a ocupação dos homens será o roubo, a mentira e a violência desnecessária. Os laços familiares não se estenderão além dos vínculos imediatos do matrimônio, os lares serão desprovidos de piedade, e todos os seres humanos parecerão asnos. Na era de Kali, as pessoas tendem a ser gananciosas, mal comportadas e desumanas, e brigam uns com os outros sem nenhuma boa razão. O povo de Kali-yuga é desafortunado e assediado por desejos materiais, e quase todo composto por bárbaros. Quando há predominância do engano, mentira, preguiça, sonolência, violência, depressão, lamentação, confusão, medo e pobreza, essa é a era de Kali, a era do modo da ignorância. Em decorrência das más qualidades da era de Kali, os seres humanos terão visão curta e serão desafortunados, glutões, luxuriosos e empobrecidos. As mulheres, deixarão de ser castas, vagarão à vontade de um homem para outro. As cidades serão dominadas por ladrões. Os líderes políticos chegarão quase a consumir os cidadãos, e os ditos sacerdotes e intelectuais se entregarão aos ditames do estômago e órgãos genitais. Os pais de família virarão mendigos e os negociantes se ocuparão num pequeno comércio e ganharão dinheiro através de fraude. Mesmo sem haver emergência, as pessoas considerarão bastante aceitável qualquer ocupação degradada. Os servos abandonarão um senhor que tenha perdido a sua riqueza, mesmo se esse senhor for uma pessoa santa de caráter exemplar. Os patrões abandonarão um servo incapacitado, mesmo que esse servo tenha estado na família por gerações. As vacas serão abandonadas ou mortas quando deixarem de dar leite. Em Kali-yuga os homens serão desprezíveis, rejeitarão seus pais, irmãos, outros parentes e amigos. Dessa maneira, seu conceito de amizade será baseado exclusivamente em vínculos sexuais. Homens que nada sabem de religião subirão no trono do mestre e se atreverão a falar de princípios religiosos. Na era de Kali, a mente das pessoas estará sempre agitada. Elas ficarão magras em virtude da fome e dos impostos, meu querido rei, e estarão sempre perturbadas devido ao medo da seca. Terão falta de roupas, comida e bebida adequadas, serão incapazes de ter descanso apropriado ou de se banhar. De fato, as pessoas em Kali-yuga aos poucos ficarão semelhantes a criaturas assombradas ou fantasmas. Em Kali-yuga os homens desenvolverão ódio mútuo até por causa de algumas moedas. Abandonando todas as relações amistosas, estarão prontos a entregar a própria vida e a matar até mesmo os próprios parentes. As pessoas não protegerão mais seus pais idosos, filhos ou esposas respeitáveis. Totalmente degradados, só cuidarão de satisfazer o próprio estômago e órgãos genitais. (Srimad-Bhagavatam , Canto 12, capítulos 2 e 3)

Mad Max de acordo com as profecias da Grécia Antiga.

Para os gregos do período clássico (750 anos antes de Cristo), dois poetas eram referência no que tange aos mitos da Grécia: Homero e Hesíodo. O primeiro foi o responsável pela Ilíada e Odisséia, as epopéias definitivas da Hélade. O segundo compôs duas obras seminais: A Teogonia e Os Trabalhos e Os Dias. Esta, possui uma explicação sobre um ciclo de eras cósmicas pelo qual a Terra atravessa: Ouro, Prata, Bronze, Heróica e Ferro. Hesíodo afirma nos versos de Os Trabalhos e Os Dias (Erga kai Hēmerai – em grego) que vivemos a “Era de Ferro” e que ela tende a piorar conforme os anos passam.

Segue abaixo, os versos traduzidos do grego sobre a Era de Ferro:

“Antes não estivesse eu entre os homens da quinta era, mais cedo tivesse morrido ou nascido depois. Pois agora é a era de Ferro e nunca durante o dia cessarão de labutar e penar durante o dia e nem à noite de se destruir; e árduas angústias os deuses lhes darão. Ainda sim para eles, bens estarão mesclados aos males. Mas Zeus destruirá esta raça de homens assim que eles nascerem com os cabelos brancos. Nem pai a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a hospedeiro ou camarada a companheiro, e nem irmão a irmão caro será, como já havia sido; vão desonrar os pais tão logo eles envelheçam e vão censurá-los, com duras palavras, insultando-os; cruéis, sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder retribuir aos velhos pais os alimentos; é a força do braço, um do outro a cidade saqueará. Não terá alegria o que jura certo, nem o justo nem o bom, mas ao que é perverso e desmedido o povo estimará. É a lei do mais forte e pudor não haverá; o covarde ao mais honesto lesará com tortas palavras falando e sobre elas jurará. Inveja perseguirá aos homens – desgraçados, todos – horripilante- alegra-se com a dor alheia- maliciosa. Então ao Olimpo, da Terra de amplos caminhos, com os belos corpos envoltos em alvos céus, à tribo dos imortais irão,  Pudor e Partilha, abandonando os homens. Só restarão tristes pesares aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!”
Os Trabalhos e os Dias (Versos 173-201).

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“Inveja maliciosa perseguirá aos homens – desgraçados, todos – horripilante, alegra-sem com a dor alheia ” Os Trabalhos e os Dias


Mad Max segundo as profecias da Roma Antiga.

Ovídio nasceu no Império Romano no ano de 42 antes de Cristo. Sua poesia se tornou influente em todo o mundo ocidental posterior e seu livro “Metamorfoses” é uma das mais importantes fontes de mitologia clássica. Neste livro Ovídio narra um ciclo de quatro eras para a terra: Ouro, Prata, Bronze e Ferro. Eis como ele descreve a Era de Ferro:

“Eis a última era: a de Ferro. Todo o horror, todo o mal rebentam nela. Súbito fogem fé, pudor, verdade. Ocupam lhe o lugar mentira, astúcia, a insultuosa força, a vil deslealdade, e a cobiça possessiva… e em terra antes comum a todos, qual luz do sol e o ar, surge fronteiras artificiais. Nem só colheita e grãos vindos da rica Terra exigiam; porém adentraram-lhe as vísceras, e os bens que ela escondera na sombra do Estige foram desenterrados, provocando males. E já o ferro nocivo, e o ouro bem pior, surgira: e surge a guerra em que cada um brande em mão ensanguentada as armas crepitantes. Vive-se da rapina, o sogro teme o genro; o hóspede, o anfitrião; rara a paz entre irmãos. Os cônjuges desejam a morte um do outro; madrastas más fabricam venenos terríveis; o filho anseia o fim prematuro dos pais. Jaz vencida a virtude, e a virginal Astréia, a última da divindades celestiais, por fim, deixou esta terra banhada de mortes ” Metamorfoses ( Livro 1 / versos 124-156)

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Nem só colheita e grãos vindos da rica Terra exigiam; porém adentraram-lhe as vísceras, e os bens que ela escondera na sombra do Estige foram desenterrados, provocando males” – Metamorfoses


Conclusão
Apocalipse e Mad Max. É possível manter a humanidade perante tanta desgraça?

Um tema permeia todas estas profecias de apocalipse e o filme Mad Max: a degeneração das qualidades que nos tornam humanos. Perdendo as qualidades que nos distinguem dos animais ( como compaixão, distinguir o certo do errado, retidão, senso de dever com próximo etc), perdemos a nossa humanidade. Precisamente esta é a linha que nos separa da barbárie.

O mundo de Mad Max apresenta antagonistas que não ligam mais em reter estas qualidades e que se deixam bestializar em um mundo de brutos, regido pelo egoísmo. E apesar de Max ser retratado como um agente mortal em nome da vingança no primeiro filme, nos outros subsequentes Max é um herói relutante e vacilante, mas que no fundo tem um bom coração. Nas palavras do diretor George Miller:

“ O Filme ‘Mad Max: A Estrada da Fúria’ começa com um mundo pessimista e termina com a possibilidade de um renascimento, não importa o quanto a situação seja ruim. Max passa a maior parte do filme tentando negar a sua humanidade. Mel Gibson chamou o personagem de ‘humano dentro do armário’, já que Max não quer se envolver com outros seres humanos porque ele acredita que qualquer investimento emocional será muito doloroso e que comprometerá as suas chances de sobrevivência. Ele mal consegue expressar o seu sentimento pelo seu próprio cachorro…mas há uma qualidade de ‘bondade’ no personagem, um ‘coração bom’, então você sabe que há potencial em Max, você entende que ele está pronto para reacender a chama de compaixão dentro dele. Um ótimo exemplo disto é a relação dele com o menino selvagem. No final do filme, Max compreende – talvez inconscientemente- que ele não pode viver completamente sozinho, e que a sua vida deve ter um propósito maior. Desse modo, ele entende que não tem outra escolha a não ser dirigir o caminho tanque para as pessoas que serão atacadas pelos lunáticos. Max começa a acreditar, como cada um de nós, que ele é parte de um coletivo, goste ou não.”

Neste contexto os vilões são aqueles que optaram ser levados pela maré em um mundo caótico, hipócrita e sanguinário, apenas se preocupando com prazeres ou comodidades materiais em prejuízo do próximo. O diretor George Miller explica um pouco mais:

Eu acho que os vilões do filme são aqueles que optaram por pensar ‘não há esperança, não há alternativa para um renascimento, nosso meta é apenas sobreviver tomando das outras pessoas o que restou’”

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Neste ponto , Mad Max espelha a ideologia por trás de todas as profecias védicas, gregas e romanas listadas anteriormente.

De acordo com as notas da tradução de Os Trabalhos e Os Dias de Luiz O. Mantovaneli:“o homem que vive de forma justa assemelha-se aos deuses e está próximo de sua origem, enquanto aquele que nega a justiça aproxima-se das bestas”

Mêncio, um dos maiores filósofos da China antiga também diz:

pequena é a diferença entre a humanidade e a barbaridade. O homem comum perde essa característica, o homem exemplar a conserva em seu coração” Mencius
(IV. B. 19)

Ao se recusar a ser unicamente controlado pelo medo, cobiça, inveja, violência e loucura, Max, mesmo que inicialmente relutante, acaba optando desenvolver as sementes da virtude de seu coração. É isto que o separa dos vilões do filme. Max poderia ser um deles devido as circunstâncias, mas por fim decide tomar um outro caminho. E esta escolha , nos últimos três filmes, o leva a um estado mental de felicidade. Materialmente Max não recebeu nada ( até perdeu), mas espiritualmente ele se sente realizado. Assim, os filmes encerram-se em um final feliz, com o protagonista recobrando a sua humanidade e se tornando um herói quase mítico para aqueles que ele ajudou.
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Nesta jornada Max conta com aliados, amigos, que o ajudam a recobrar esta humanidade e a cultivar esperança em seu coração endurecido.

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As escrituras Védicas e Gregas também prenunciam um final feliz, apesar de afirmarem que vivemos em uma era degradada que durará muitos e muitos anos. No caso do poeta grego Hesíodo, está implícito que após esta turbulenta época do homem da era de ferro, uma era dourada surgirá novamente ( assim como o mito da “Era de Ferro”, o mito da “Era de Ouro” também faz parte das narrativas de diferentes culturas) fazendo com que a paz, a espiritualidade e a harmonia reinem mais uma vez entre os homens. No caso dos Vedas, as profecias fornecem números mais exatos ( a Índia Antiga é conhecida pela alto grau de sofisticação matemático, o número zero por exemplo foi invenção dessa cultura) e também citam um intervalo na Kali-Yuga em que as virtude divinas estarão presentes de novo na humanidade, seria a era de ouro do avatar Chaitanya Mahaprabhu, mesmo dentro desta era sombria.

Os momentos e situações intensas que os habitantes deste atual mundo estão passando servem como um teste para avaliar a sinceridade do coração de cada um, pois vimos que o mundo apocalíptico de Mad Max ainda deixa espaço para que as pessoas de boa vontade continuem a sua jornada. Esperança também é uma imagem forte em toda a cultura mundial,e este conceito tem força em Mad Max. Mesmo em um mundo selvagem, ainda existe a possibilidade de desenvolver as sementes das virtudes no coração. Em um sentido, o ambiente catastrófico serviria como catalisador para estas mudanças internas radicais. A reencarnação é própria do pensamento dos Vedas ( e do pensamento platônico/pitagórico ), desta forma a jornada do protagonista da nossa própria história, no caso nós mesmos- a nossa consciência, ou alma- , continuaria por muitas e muitas vidas, como se fossem continuações dos filmes de Mad Max, como se fossem reboots: A mesma essência de personagem só que em corpos diferentes.

A mensagem final de Mad Max, Os Vedas e as escrituras grego-romanas é que a redenção e a prática da virtude sempre são possíveis, mesmo nos mais sombrios dos mundos pós-apocalípticos.

Uma coisa que me ajudou a colocar tudo de forma mais clara é a noção de que filmes são verdadeiramente sonhos coletivos. E assim como sonhos tem funções, os pesadelos nos ajudam a confrontar os nossos lados sombrios.” – George Miller , diretor de Mad Max.

“Aonde devemos ir, nós que peregrinamos por este deserto, em busca do melhor de nós mesmos?” Mad Max: A Estrada da Fúria

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Bibliografia

1-) Bhagavad-Gita Como Ele é – Tradução e comentários de: Srila Prabhupada – Editora BBT
2-) Srimad-Bhagavatam de Vyasadeva – Tradução e comentários de: Srila Prabhupada – Editora BBT
3-) Os Trabalhos e Os Dias de Hesíodo – Tradução e comentários de: Mary de Camargo Neves Lafer – Editora: Iluminuras
4-) Os Trabalhos e Os Dias de Hesíodo – Tradução e comentários de: Luiz Otávio Mantovaneli – Editora: Odysseus
5-) Metamorfoses de Ovídio – Tradução: Raimundo Nonato
http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidio-raimundocarvalho.pdf
6-)Metamorfoses de Ovídio – Tradução: Bocage – Editora Hedra
7-) Mencius – Tradução e comentário: D.C. Lau – Editora Pinguin Books
8 -) A Jornada do Escritor – Christopher Vogler – Editora Aleph
9 – ) https://thefilmist.wordpress.com/2009/09/19/danny-peary-on-mad-max-2the-road-warrior/
10-) http://www.maicar.com/GML/AgesOfWorld
11- Save The Day – A. David Lewis

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