O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 2

Gandalf

o mestre expõe seu poder e habilidade, dissipando a ilusão com o archote do conhecimento e destruindo a ignorância com a espada da sabedoria

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A primeira vista, apenas um velho de barbas grisalhas, encurvado pela idade e se apoiando em um longo cajado, Gandalf é muito mais do que se pode imaginar. Um mago repleto de sabedoria e dotado de um poder descomunal, é ele quem tira o pobre hobbit Bilbo de sua inércia e o lança em uma jornada inesperada.

Na vida espiritual, todos precisam da ajuda de um “Gandalf”, de alguém que conheça os mistérios das Terras Ermas e que possa revela-los. Ao se deparar com tal personalidade, que podemos chamar de guru ou mestre, a alma começa sua verdadeira aventura, ainda que não entenda bem o porquê disto.

Gandalf sempre possui muitos truques nas mangas e no começo da viagem a Erebor, ele é quem revela tanto o mapa para chegar na Montanha, quanto a chave para entrar nela. Da mesma forma, o mestre é aquele que conhece tanto a teoria, quanto a prática da espiritualidade, porque antes de ser um mestre, ele já foi um esmerado discípulo e pôs a prova tudo o que agora ensina, conhecendo muito bem os percalços e prazeres do caminho e podendo revelar qual trilha devemos seguir. Ele não delira em suas próprias especulações a respeito da Verdade, tentando fabricar uma suposta doutrina esotérica através de seus sentidos imperfeitos. Com humildade, ele reconhece sua pequenez diante do mundo, preferindo transmitir a prática sabedoria atemporal que já foi validada pelos transcendentalistas de várias gerações, ajustando sua implementação ao contexto cultural aonde está situado.

Ele também pode nos indicar aquilo que antes não percebíamos: nossas próprias fraquezas e imperfeições. E como conhece o coração de cada um de seus alunos, o mestre pode ajuda-los a pacientemente removerem estes defeitos de si, abrindo espaço para que o esplendoroso fulgor da centelha divina que habita em cada um brilhe desimpedidamente.

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O velho mago Gandalf é sempre muito sábio em suas palavras, conseguindo persuadir o hostil Beorn, o troca-peles, a receber Bilbo e os anões em sua casa e os mostrar qual caminho deveriam tomar para avançar pela Floresta das Trevas. Assim é o guru, que munido de sua grande experiência do funcionamento deste mundo pode mudar o coração dos homens, trazendo gentileza e humildade para aqueles que antes eram ariscos, presenteando com cautela e introspecção aqueles que eram precipitados e outorgando audácia e altivez para aqueles que eram irresolutos e sem confiança.

Gandalf caminha como um senhor idoso pela Terra-Média apenas para despertar mais facilmente a empatia de seus interlocutores, fazendo com que suas instruções sejam aceitas com menos orgulho. Apesar da sua aparência frágil, é nas Montanhas Sombrias que Gandalf revela toda sua glória e majestade, conjurando chamas e brandindo sua reluzente espada Glamdring para salvar seus protegidos dos temíveis orcs e wargs. Essa é uma importante lição: não devemos procurar o mestre espiritual em alguma figura estereotipada de um alienado homem de barbas longas e dreads ou de outra figura excêntrica vinda do Oriente. Normalmente ele se parece com um cidadão ordinário, mesmo porque nunca quer chamar atenção para si, sempre reservando os holofotes para o conhecimento que carrega consigo. Mas para salvar seu inexperiente discípulo das garras do engano, o mestre expõe seu poder e habilidade, dissipando sua ilusão com o archote do conhecimento e destruindo sua ignorância com a espada da sabedoria.

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Gandalf não apenas protege Bilbo, como também lhe põe em situações que o forçam a trazer à tona o valoroso herói que existe dentro dele e é assim que o verdadeiro mestre age. O guru não está interessado em entreter seu discípulo com algum tipo de espetáculo pirotécnico ou pretensa exibição de poderes místicos, tampouco quer angariar sua atenção em troca de algum tipo de consolo emocional barato. O mestre é aquele que viu a Verdade e que portanto pode orientar outros a como terem experiência direta dela. Desta forma, ele não torna o seu discípulo dependente da sua presença pessoal, senão que insufla em seu coração a pura essência de seus ensinamentos, para que o aluno maduro possa aprender a discernir por conta própria. E assim o mestre vai forjando a verdadeira personalidade espiritual do discípulo, ajudando-o a se tornar cada vez mais forte e deixando-o sempre um passo mais próximo do grande tesouro que lhe aguarda.


Gollum

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Em uma ilha rochosa no meio de um lago subterrâneo nas profundezas das Montanhas Sombrias habita a pequena e viscosa criatura capciosa chamada Gollum. Incapaz de se adaptar a um ambiente límpido e arejado, esse ser vive rastejando por locais pútridos e sufocantes. Apesar do aspecto asqueroso, Gollum na verdade é um hobbit como Bilbo, mas que teve o infortúnio de ser corrompido pelo apego que possui ao seu anel mágico. Similarmente, a alma, quando se torna refém de desejos egoístas, apesar de seu esplendor original acaba por ficar condicionada a uma falsa personalidade tomada pelo orgulho e pela arrogância.

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É notável que Gollum não consegue apreciar uma saudável e suculenta refeição, com vegetais cozidos e boas frutas frescas, preferindo antes se alimentar da carne em decomposição dos peixes e goblins que consegue estrangular. A alma iludida também não anseia por qualidades nobres, como simplicidade, veracidade e pacificidade, sendo impelida a se alimentar de sentimentos que fomentam cada vez mais o seu egocentrismo.

Vivendo na completa escuridão por décadas, os olhos de Gollum se adaptaram as trevas e se tornaram como duas luzes pálidas e doentias entre as sombras, sendo incomodados pela luz do sol ou mesmo de tochas. E a alma que está ofuscada pelo materialismo também perde sua sensibilidade para admirar as virtudes alheias, se tornando perita em observar os defeitos daqueles que a cercam; não para ajuda-los a corrigi-los, senão que para criticá-los ou explorar lhes as fraquezas. Ao se absorver nessa contemplação, a pobre alma vai perdendo cada vez mais seu senso de compaixão e sua gentileza e modéstia naturais.

Ao perceber a presença de Bilbo, Gollum se sente tentado a lhe devorar, mas ao se dar conta que ele levava consigo o punhal élfico Ferroada, o pequeno ser asqueroso se vê forçado a tentar uma abordagem mais sútil e lhe propõe um jogo de adivinhas, no qual tenta derrota-lo para que possa em seguida mata-lo. Da mesma forma, a alucinação causada pelo apego a matéria não consegue atacar a poderosa alma diretamente; por isso, vai ardilosa e sorrateiramente lhe sugerindo todo tipo de propostas descabidas, fazendo com que ela lenta e imperceptivelmente perca sua magnanimidade original.

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Mas quando o esperto Bilbo consegue ganhar de Gollum nas adivinhas, ele afortunadamente põe o seu recém adquirido anel mágico e descobre que este poderia torna-lo invisível. Assim, sem poder ser visto por Gollum e de posse de sua adaga, ele poderia acabar de uma vez com o vilão, mas por misericórdia não o faz. Ainda bem, pois Gollum muitos anos depois acabaria sendo uma ferramenta fundamental nas mãos do destino para a derrota definitiva do Senhor das Trevas.

E a alma que está se esforçando no caminho da perfeição espiritual também não odeia, nem inveja seus irmãos menos evoluídos, por mais presunçosos e ríspidos que pareçam ser. Ela se mantém vigilante, para que não seja afetada pelas atitudes inconsequentes destas almas iludidas, mas ao mesmo tempo sabe que o ser de cada entidade viva neste mundo, independente do corpo no qual esteja habitando, é da mesma qualidade que si própria e é igualmente uma parcela da energia de Deus, possuindo um importante papel a desempenhar nos planos divinos.

Continua…

Leia a Parte 1 e 2 em  https://nerdomline.wordpress.com/115-2/

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