O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 3 – Raças da Terra-Média

gunas

Os Vedas ( as escrituras da Índia antiga) nos ensinam que o mundo material é constituído de três atributos básicos, chamados gunas, que influenciam todas as ações exercidas neste mundo. Desta forma, nenhuma atividade é boa ou má em si mesmo, podendo ser executada sob o domínio de qualquer um dos gunas e estando sujeita a sua qualidade específica, como será explicado de forma mais detalhada adiante.

Como sabemos, na Terra-Média habitam diferentes raças, com suas próprias características físicas, psicológicas, línguas e culturas, então analisaremos agora algumas das principais, usando para isso os gunas.


Orcs


LOTR1

Uma raça de seres corruptos que servem por temor a Melkor (e posteriormente a Sauron e Saruman), são de aparência horripilantes, possuindo uma tez desbotada, braços compridos, costas arqueadas e feições abjetas. Mas pior do que sua compleição é sua índole, pois são cruéis, destituídos da capacidade de realizarem julgamentos morais, sempre vorazes e sem nenhuma meta para sua existência. De fato, sua única preocupação é sobreviver, mesmo à custa de atos hediondos.

O guna que define os orcs é tamas, o modo da natureza que induz as pessoas a letargia, a passividade e a busca por pequenos prazeres hedonistas conseguidos sem muito esforço. Sob a sua influência, naturalmente se manifestam o sono, a indolência e a falta de objetividade, de forma que a existência da pessoa condicionada por tamas parece se reduzir a uma mera tentativa de atender as suas próprias demandas corpóreas.


Anões


The-Hobbit-movie-dwarves

Raça de origem muita antiga, tem como características principais a sua baixa estatura, se comparados com homens e elfos, sua compleição larga e robusta e sua espessa e vasta barba, bem como sua extraordinária habilidade em trabalhar com metais. Excelentes artificies, os anões são dotados de uma grande capacidade criativa. Seu temperamento é marcado pela sua honradez, apego a suas próprias tradições, pelos fortes vínculos que estabelecem com seus parentes e amigos, bem como por seu orgulho, teimosia, senso de vingança e ganância.

O guna que rege a vida dos anões é rajas, cuja influência conduz a paixão, imediatismo, grande apego, esforço intenso e desejos incessantes. Alguém condicionado por rajas possui metas em sua vida, mas não considera os seus resultados para os outros, nem para si mesmo a longo prazo. Ele também fica demasiadamente preso aos conceitos de sucesso e fracasso. Desta forma, ele desfruta de uma alegria febril e histérica caso seja bem sucedido em seu intento, esquecendo-se que neste mundo tudo é efêmero e que estamos sempre sujeitos a perder aquilo que conquistamos, e sofre e se deprime exageradamente caso malogre em seu empreendimento.


Elfos


the-lord-of-the-rings-elves-facebook-timeline-cover-for-fb

São os primogênitos entre as raças da Terra-Média e os primeiros a falarem, sendo mais antigos que o Sol e a Lua. Imortais, os elfos não adoecem, nem envelhecem. Naturalmente belos, possuem compleição alta e esguia, são amantes das artes, famosos por suas melancólicas e nostálgicas canções. Também são grandes arquitetos e escultores, estudiosos eruditos e notadamente conhecedores das artes de cura. Possuindo uma estrutura familiar extremamente coesa, os elfos só se casam uma única vez e nunca se entregam a luxúria. Eles não costumam consumir seu tempo com frivolidades, preferindo o cultivo de conhecimento. Apesar de sua cultura avançada, devido a sua superioridade em relação aos mortais, os elfos por muitas vezes se tornam insensíveis ao seu sofrimento, sendo arrogantes e frios com outras raças e voltados para os seus próprios interesses.

Sattva é o guna que influencia a vida dos elfos e suas características são a busca pela bondade, harmonia e equilíbrio. Aqueles condicionados por sattva normalmente se inclinam a filosofia, belas artes e ciências. Eles gradualmente desenvolvem um senso de piedade e uma tolerância para austeridades e sacrifícios, caso estes tragam benefícios para si e para os demais a longo prazo. Gravidade, limpeza e autocontrole são virtudes que se manifestam neles espontaneamente. Mas sattva também possui um ponto fraco: devido a sensação de crescente felicidade que ela proporciona, aqueles por ela regidos muitas vezes se acomodam e interrompem seu progresso espiritual. Estando numa plataforma de vida superior, às vezes eles negligenciam os demais, que não são tão evoluídos e refinados quanto eles.


Algumas considerações adicionais sobre os gunas


3-gunas-

Como dito anteriormente, cada ação pode ser executada sobre a influência de um guna específico. Por exemplo, caso alguém dê caridade considerando cuidadosamente se a sua doação será bem utilizada e por uma questão de dever, sem esperar qualquer recompensa em troca, então este é ato é sattvico. Caso a caridade seja feita com algum tipo de expectativa, como por exemplo, a obtenção de uma boa reputação, então ela é rajasica. Agora, se ela for feita de forma sentimentalista, sem nenhum tipo de consideração do seu uso, como por exemplo, o dinheiro dado a um drogado que o usará para se degradar ainda mais, é dito que essa caridade é tamasica. E o mesmo se aplica para tudo o mais que se pode fazer neste mundo.

modes-article

Os gunas competem entre si pela supremacia. Desta forma, ninguém está sob a influência unicamente de um guna exclusivo, senão que simultaneamente dos três, sendo um deles proeminente. Assim, mesmo alguém sob o regime de sattva pode exibir traços de tamas, como é o caso do chefe dos guardas da Floresta das Trevas, que ao se entregar a bebedeira deixou de lado seu dever de vigiar os prisioneiros.

E obviamente, dependendo do tipo de mentalidade que alguém cultive, o guna proeminente pode mudar, bem como os níveis de influências exercidos pelos demais gunas sobre ele.

Enquanto persistir a influência dos gunas sobre uma pessoa, ela ainda estará sujeita ao materialismo. Apesar da nítida superioridade de sattva para alguém interessado em desenvolver sua consciência, mesmo este guna deve ser transcendido. Só se atinge plena iluminação quando todos os gunas estão ausentes. Neste estágio, a alma exibe uma bondade pura, sem a mácula de rajas e tamas. Nesta fase também não existe o perigo de se menosprezar alguém como em sattva, pois o ser iluminado percebendo claramente a natureza espiritual de todas as entidades vivas torna-se equânime e amigo de todos.

Sendo a iluminação uma plataforma bem elevada e difícil de ser conquistada, os Vedas recomendam que a pessoa tente se manter predominantemente em sattva até que se alcance este nível, lembrando bem que este guna é um ótimo meio, mas nunca a meta. Assim, alguém que está em sattva e conscientemente se esforça para continuar avançando, pode usar até mesmo a influência que sofre de rajas e tamas de forma positiva, usando, por exemplo, o impulso criativo de rajas para começar novos empreendimentos altruístas e a passividade de tamas para poder fazer uma imersão saudável no ócio criativo e na reflexão ponderada de suas atitudes. Podemos ver um exemplo disto nos hobbits.


Hobbits


hobbits

Povo aparentado dos Homens, são bem conhecidos pelo seu pequeníssimo tamanho, pelos seus pés e mãos grandes e peludos e pela sua falta de curiosidade em relação a tudo que se passa fora da sua terra, conhecida como Condado, e por serem adeptos de uma vida o mais simplificada possível.
Um hobbit certamente não perde seu tempo com indagações filosóficas, pois acha que ele seria mais valioso se despendido com comidas, bebidas, um descanso tranquilo e uma boa erva-de-cachimbo. (Características de tamas.)
No entanto, sabem defender sua terra e seu povo quando necessário, pois são silenciosos, acostumados a andar pelo seu território sem serem percebidos a ponto de outros acreditarem que sua furtividade é mágica, além de serem razoáveis arqueiros.
Entre os hobbits existiram até mesmo casos (raros) de guerreiros famosos, como o lendário Bandobras “Urratouro” Tûk, que com sua perícia em combate conseguiu derrotar o líder dos orcs que invadiam Golfinbur, na Batalha dos Campos Verdes (além de ter inventado o golfe…). (Característica de rajas.)
E é claro que os hobbits também são notáveis pela sua predileção por uma vida natural, sem grandes engenhos desnecessários, evitando assim a criação de necessidades artificiais. (Característica de sattva.)

Bilbo Bolseiro é um caso interessante, pois estava habitualmente situado em sattva (era muito erudito, um poeta nato, escritor e tradutor), mas usou a influência de rajas quando necessário (para ter o ímpeto necessário para lutar e fugir de perigos) e a passividade de tamas para não se absorver mais do que o necessário na fortuna que herdara após a Batalha dos Cinco Exércitos.

Assim como os hobbits exibem interações dos três modos, da mesma forma ocorre conosco. E o yogi, o mestre dos sentidos e senhor de suas ações, é aquele que consegue estar atento as influências que está recebendo dos modos, se esforça para se situar na bondade sattvica e usa a paixão rajasica e a inércia tamásica a seu favor, como Bilbo.

rings_the_hobbit_cover_martin_freeman_bilbo_baggins_1280x800_44680
Continua…

Curta nossa página no Facebook https://www.facebook.com/Nerd-OMline-%E0%A5%90-693976080707108/timeline/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s