Homem Animal – o super-herói vegetariano contra a exploração dos animais

Acaba de chegar às bancas, pela editora Panini, o primeiro volume de O Homem Animal, o Super Herói vegetariano e ativista do direitos dos animais.

HomemAnimal

Super Heróis.

Eles combateram alienígenas fascistas, praticantes de magias ocultas e malignas,  loucos pirados de hospícios sombrios, magnatas industriais e barões da mídia , reis do crime etc etc… todas as ameaças que certamente destruiriam a humanidade.  Eles nos salvaram do sofrimento,  exploração, tortura e morte.

Nós, terráqueos, somos eternamente gratos.

Mas e quanto aos animais? Estariam os Super Heróis indiferentes ao sofrimento destes outros seres? Afinal, os animais também vivem na Terra e também podem ser chamados de terráqueos.

E os ursinhos pandas à beira da extinção? E os poodles indefesos espancados por donos surtados? E os gatinhos que não conseguem descer de uma árvore?

Os Super Heróis também não os protegem?

Claro que sim.

Eles não são apenas “Heróis”. Eles são “Super”.

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Todavia, a questão fica delicada quando se fazem as seguintes perguntas: e os milhões de animais ( gado, aves e suínos) abatidos diariamente na indústria alimentícia da carne? E os que estão sendo mortos para ter sua pele vendida no mundo fashion da moda? E os milhares de macacos, cachorros beagles e camundongos que estão sendo torturados em procedimentos científicos de vivissecção neste exato momento?

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Para tais questionamentos, temos uma boa notícia: o gibi do “Homem Animal”, o super herói vegetariano e ativista dos direitos dos animais, está sendo reimpresso no Brasil pela editora Panini.

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Capa do primeiro volume do gibi Homem Animal, disponível nas bancas e lançado pela editora Panini.

A seguir, refletiremos sobre o primeiro volume recentemente relançado, “Homem Animal – O Evangelho do Coiote”, que nos ajudará a responder tais indagações cósmicas.

Excelsior!


Homem Animal e o Super Herói e seu papel dentro de um mundo político e social.


O encontro dos super heróis com problemas mais próximos do nosso cotidiano (políticos, sociais e ambientais) sempre esteve presente. As primeiras histórias de Superman por exemplo mostram o filho de krypton lutando contra espancadores de mulheres, pobreza e políticos corruptos. Lanterna Verde e o Arqueiro Verde, na clássica série da década de 70, percorrem o E.U.A enfrentando males sociais como o vício em drogas, racismo e poluição.

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Mais recente, o célebre desenhista Alex Ross ilustrou uma coleção em que Superman luta contra a fome no mundo assim como outros heróis da DC enfrentam problemas sociais e políticos.

Em outra linha,  V de Vingança, Watchmen e Marshal Law problematizaram a própria questão dos super-humanos. Se existissem super heróis de verdade em nosso mundo ( se é que não existem), eles estariam reprimindo ou libertando a população em geral? Estariam do lado do neoliberalismo? Do imperialismo? Do comunismo? Do socialismo?  Do capitalismo? Do fascismo? Das elites ? Ou das massas?


Super Herói. Ser ou não ser. Eis a questão.

Todavia, nesta miríade de temas e problemas sociais ( isto quando não estão lutando contra forças titânicas alienígenas) a ser enfrentado pelo super-heróis, ninguém havia tocado em uma questão quase invisível, mas crucial: E os animais? Quem poderá defendê-los?

No gibi “Superman-Legado das Estrelas”, o Super-Homem explica que com a sua super-visão extraordinária consegue ver as auras dos seres. Ele diz que as coisas vivas emitem uma aura luminosa, uma espécie de efeito da alma presente no corpo. Quando um ser chega ao fim de sua vida, essa aura presente no corpo desaparece, como se a alma tivesse deixado o corpo. O que resta, segundo ele, é o corpo inanimado, algo vazio, e se alimentar de coisas vazias o deixa de certa forma vazio também. Por isso ele diz ter se tornado vegetariano.

Apesar disso, nenhum super herói, nem mesmo o quase messias Superman, havia levado a fundo a questão dos direitos dos animais. Mas surgia um vigilante que estava prestes a mudar tudo isso. Ele não apenas seria vegetariano, mas lutaria contra toda a exploração animal, na terra e no mar, e seu nome não poderia ser mais conveniente: O Homem Animal.


O Homem Animal: vegetarianismo e o direito dos animais.


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Na década de 80, a editora DC contratou roteiristas britânicos para revitalizar o seu conteúdo, como por exemplo o autor Allan Moore em “Monstro do Pântano” e Neil Gaiman em “Sandman”.

Grant Morrison encarregou-se do Homem Animal, obscuro super herói de terceiro escalão. O autor escocês não só revitalizou o personagem, proporcionando sucesso de vendas, como escreveu histórias que até hoje são consideradas de vanguarda.

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O roteirista Grant Morrison

Mais do que isso. Grant Morrison fez com que um super herói pela primeira vez se preocupasse com a questão do sofrimento e exploração animal:

Eu ficara horrorizado com as cenas pungentes de um documentário sobre direitos dos animais e uma única sessão foi o suficiente para me converter ao vegetarianismo. Vi como usar o Homem-Animal como porta-voz contra a crueldade com os animais e a degradação geral do meio ambiente, assim como para exames mais aprofundados do super-herói enquanto ideia.” (Superdeuses)

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O Homem Animal mostra sua revolta contra animais torturados em procedimentos científicos de vivissecção.

Em 1976, o filósofo Peter Singer lança o  livro “Libertação Animal” que contribuiria de modo significativo para uma maior percepção do público em relação à condição dos animais, especialmente na indústria e na ciência. Tal livro ajudaria a turbinar o movimento Frente de Libertação Animal.

“O aspecto importante de ter trabalhado em HOMEM-ANIMAL foi não só que a revista deu uma plataforma para minha perspectiva ranzinza e progressivamente misantrópica a respeito dos direitos dos animais. Ela também me incentivou a aliar os atos às palavras. E assim se deu que, pouco depois de começar a trabalhar em HOMEM-ANIMAL, afiliei-me aos apoiadores da Frente pela Libertação Animal e comi o último bife da minha vida.” ( Introdução do Homem Animal – O Evangelho do Coiote)

Contudo, a ideia de animais terem direito parece incomodar uma parte significativa da sociedade, especialmente aquela aliada à grande mídia e à lógica do capital. Já que estamos no “topo da cadeia alimentar” não seria nosso direito biológico comer carne? Por acaso nosso corpo sobreviveria sem a proteína da carne? As experiências em animais não seriam necessárias para o avanço da sociedade ( tecnologia e ciência) e para a proteção dos humanos?

São chavões repetidos a exaustão.

Um Super Herói como o Homem-Animal, que luta pelos direitos dos animais, é realmente um benfeitor? Não seria ele um fanático extremista utópico?


Exploração dos animais


De acordo com o livro do filósofo Peter Singer há uma tirania dos animais humanos sobre os animais não-humanos:

Esta tirania provocou e provoca ainda hoje dor e sofrimento só comparáveis àqueles resultantes de séculos de tirania dos humanos brancos sobre os humanos negros. A luta contra esta tirania é uma luta tão importante quanto qualquer outra das causas morais e sociais que foram defendidas em anos recentes.” ( Libertação Animal)

A comparação da escravidão industrial moderna dos animais à condição dos escravos é pertinente. Como os escravos, os animais são desprovidos de direitos, ele são mais “coisas”. Quando se é considerado uma “coisa”, ou algo de status inferior, abre-se procedente para subjugação e exploração. O sexismo também encara as mulheres mais como “coisas”, por isso passivas de violência. Não por acaso o primeiro volume de “Homem Animal” faz uma relação entre isso, ao mostrar um caçador sádico de animais que tenta abusar sexualmente da mulher do super herói.

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O documentário “Terráqueos” ( disponível no youtube), também faz esta relação. Quando se reduz um ser a condição de “coisa”, ou inferior, abre-se precedente para explorá-lo de todas as formas.

De fato, seja na agropecuária, na indústria alimentícia, no mercado das peles para roupas fashion ou em experiências científicas com cobaias, os animais são sujeitos à humilhação, sofrimento, tortura e morte. Os fatos, vídeos e fotos falam por si só. Eles sofrem e sentem dor, como qualquer um de nós. Não são apenas autômatos, ou meras máquinas, são seres vivos, com sentimentos. Qualquer um que tenha interagido com um cachorro ou gato de estimação sabe disso.

O problema é exatamente este. Ao mesmo tempo que consideramos um crime maltratar cães e gatos, fechamos os olhos para a grande exploração dos animais que está a nossa volta e na qual contribuímos até mesmo ativamente.

E os bois, vacas, bezerros, aves, porcos, macacos e peixes? Não são também animais que não merecem sem maltratados? Por que privilegiamos alguns e esquecemos de outros? Por que achamos que temos o direito de infligir dor e sofrimento, de modo sistemático e diário, a outros seres vivos?

Tudo em nome da “progresso” e “ciência”?

 

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“São animais mortos. Faz alguma ideia das condições terríveis que esses animais padecem antes de serem tocados para o matadouro e virarem comida na casa de alguém?” – Trecho do gibi O Homem Animal.

 

Se achamos que temos este direito então vamos supor que no mundo dos gibis, uma raça alienígena, superior a nós em atributos físicos e mentais, decida invadir a Terra e nos escravizar. Não só isso, estes seres alienígenas pretendem construir campos de concentração com seres humanos, no qual serviremos  não só de alimento, mas como cobaias em diversas experiências científicas para o avanço da ciência deles. Isto não seria correto? Não é o que prega a conclusão lógica da teoria de Darwin, “a sobrevivência do mais forte” ou do “mais adaptado”?  Por que então deveríamos resistir?

Nesta lógica, qualquer Super-Herói que lutasse contra estes alienígenas, estaria fazendo apenas por apego material à humanidade, e não por lutar pelo “bem e justiça”.  Assim, em uma perspectiva darwinista e materialista, até os conceitos de “bem” e “justiça” seriam artificiais, meras ilusões de tempo e lugar.

Sentimos, como uma intuição, que a resposta correta não é essa. Mesmo os  grandes filósofos mais antigos da humanidade já afirmavam que o sentimento de “compaixão” é intrínseco à consciência humana. Somos compassivos por natureza. De acordo com Mêncio ( discípulo de Confúcio), importante filósofo da China Antiga, ser humano é justamente isto: ter qualidades humanas como a compaixão. Isto é, fundamentalmente, o que nos define como humanos. Isto é o que nos separa da barbárie, na qual reinam exploração e violência.

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Por que então não estender este sentimento não só para todos os seres humanos, independentemente da sua etnia ou posição social, mas também para os animais? Em uma perspectiva sci-fi poderíamos até estender este sentimento para os alienígenas. Superman é um super herói altamente compassivo, ele fez um voto de nunca matar um ser vivo.

Dentro de uma perspectiva mais ampla, os animais também seriam terráqueos e também seriam membros do Estado.

Srila Prabhupada, um dos maiores expoentes do hinduísmo, tradutor do clássico “Bhagavad-Gita Como Ele É”, afirma no comentário de uma de suas traduções:

“Por que deveria o homem matar animais para seus propósitos egoístas? Por que há matadouros em todo mundo para matar animais inocentes? Por que não deveria um líder executivo proteger a vida dos pobres animais que são incapazes de se defenderem? Isso é humanidade? Por acaso os animais também não são cidadãos de um país?  Então por que se permite que sejam esquartejados em matadouros organizados? Acaso esses são os sinais de igualdade, fraternidade e não-violência?” ( Srimad Bhagavatam 1/10/5)

Sendo assim, faz todo o sentido que exista um Super Herói que se torne um vegetariano e lute para defender os animais.

Como diz Peter Coogan, especialista na literatura super-heróica:

“Um Super Herói é um protetor dos oprimidos que combate o mal e a injustiça. A missão do Super- Herói é abnegada e para o bem estar social.”

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em algum lugar macacos gritam…gritam…e gritam” – trecho do gibi Homem Animal, em que critica a vivissecção em animais.

 


 Homem Animal contra os cientistas loucos


 

No livro seminal de Peter Coogan,  “Superhero: the secret origin of a genre”, sobre o gênero de Super Herói, é enumerado cinco tipos de supervilões que permeiam as histórias, um deles é o clássico “cientista louco”

“Na sua busca de dados para conhecer mais as leis da natureza, por mais que tenha uma intenção altruísta, o cientista louco geralmente compreende mal – ou falha totalmente – na percepção sobre as dimensões morais de suas experiências; e esta falha de percepção deforma radicalmente sua consciência.”

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Este é o principal vilão da primeira história do Homem Animal: O cientista louco. O que nos surpreende na história é que ele é um cientista padrão. Testar produtos, inocular doenças, mutilar, desmembrar e dissecar animais vivos são rotinas feitas diariamente em laboratórios científicos. Milhões de animais são mortos por ano nestes procedimentos.
Assim o cientista da história não faz nada além do que já se faz no cotidiano. E é isto que nos choca. “A irracionalidade da racionalidade científica”, como diria o filósofo Herbert Marcuse. Ou seja, a loucura da “normalidade” de nossa própria sociedade. Este tema é reverberado aqui e acolá por Grant Morrison em Homem Animal.

 

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“gente que tortura e mutila em nome da ciência e sai impune para fazer tudo de novo” – trecho de o Homem Animal.

Pode-se argumentar que tudo isto ( as vivissecção em animais) é feito para o bem geral, para desenvolver vacinas, medicamentos etc. Mas pela história do gibi, fica claro que o cientista o faz para o lucro da indústria farmacêutica e da indústria bélica ( como as armas químicas e biológicas).
Assim os mitos do “progresso” e de “avanço da ciência” mascaram um lado sombrio de todo o processo, sendo a tecnologia um instrumento de dominação e exploração, começando pelos animais.

“Creio que a questão dos direitos dos animais deva ser vasta e complexa demais para se resolver nas páginas de um gibi de super-herói, mas , se HOMEM-ANIMAL ajudou a alertar um leitor quanto às atrocidades inconcebíveis que se comete diariamente em nome da pesquisa científica, já terá valido a pena.” (Introdução do Homem Animal – O Evangelho do Coiote)

 

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Bibliografia

1-) O Homem Animal ( gibi) / Autor: Grant Morrison / Editora: Panini

2-) Libertação Animal ( livro) / Autor: Peter Singer / Editora: Lugano

3-) Terráqueos ( documentário) ? link no youtube

4-) Bhagavad-Gita Como Ele É / Autor: Srila Prabhupada/ Editora BBT ( Bhaktivedanta Book Trust)

5-) Mencius / Autor: D.C. Lau / Editora: Pinguin Books

6-) Ideologia da Sociedade Industrial / Autor: Herbert Marcuse / Editora: Edipro

7-) Superdeuses / Autor: Grant Morrison / Editora: Seoman

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