11 Lições de Yoga com Stan Lee

Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades… e muitas lições.

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Nrisimhananda Dasa

Em 12 de novembro de 2018, Stan Lee partiu deste mundo, deixando como legado uma revolução cultural e artística, transformando as revistas em quadrinho em uma poderosa forma de mídia e tornando os super-heróis um ícone pop. Filho de imigrantes judeus romenos, o jovem Stan sonhava em ser um escritor influente na literatura americana, mas enquanto não conseguia concretizar sua ambição pessoal teve que se contentar em trabalhar para a editora Marvel, roteirizando histórias de heróis mascarados, as quais considerava infantis.

No início da década de 60, depois de quase 20 anos atuando nesta indústria, Lee salvou os quadrinhos de um ostracismo iminente ao adicionar em seus heróis algo que lhes faltava: problemas! Ao roteirizar histórias de seres superpoderosos que salvavam o mundo durante o dia, mas que, ao final dele, deveriam salvar seus próprios casamentos, pagar as contas e cuidar da própria saúde debilitada, Stan criou personagens críveis, com os quais o público poderia se identificar, atraindo assim milhares de novos leitores e revitalizando o gênero de super-heróis, alçando as comics de entretenimento infantil para o status de arte.

Por ter inspirado tantas pessoas a acreditarem que anônimos também podem ser heróis e fazer a diferença no mundo, Stan Lee cativou seu lugar no coração de toda uma geração. Faremos então aqui nossa singela homenagem ao artista, revelando 11 lições de yoga saídas diretamente de suas páginas!

Lição 1: “Com Grandes Poderes…”

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Peter Parker é o estereótipo perfeito do nerd adolescente: vítima de bullying, impopular e incompreendido. Mas um dia sua vida muda quando ele é picado por uma aranha geneticamente alterada e desenvolve habilidades aracnídeas. Cansado de ser humilhado diariamente e das dificuldades econômicas de sua simples família, Parker passa a usar seus novos poderes apenas de forma egoísta, ganhando dinheiro como lutador profissional de luta-livre, ignorando assim o conselho do seu sábio tio Ben: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.”

Ao testemunhar a fuga de um criminoso, Peter não faz nada para impedi-lo, pois não via aquele homem como problema seu. No entanto, o mesmo criminoso acaba por matar seu próprio tio pouco tempo depois, fazendo com que Peter refletisse sobre a verdadeira utilidade dos seus poderes, tornando-se então o Homem-Aranha, um herói altruísta preocupado com todos, apesar de seus atos bondosos nunca serem reconhecidos pela mídia, que frequentemente o confunde com um bandido.

A tradição do yoga explica que cada um de nós nasce nesta vida com uma vocação, e que quando a usamos para ajudar os outros, sem duplicidade e interesse por recompensas, estamos cumprindo o dharma, a nossa verdadeira missão nesta existência. É apenas se sintonizando com o dharma que alguém pode se sentir pleno e com propósito.

Lição 2: Há Males que Vêm para Bem

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O aclamado cirurgião Stephen Strange é um homem rico, famoso e excessivamente arrogante. Quando um acidente de carro danifica os nervos de sua mão, fazendo com que ele perca grande parte dos movimentos e da sensibilidade delas, o mundo de Strange vira de cabeça para baixo e ele gasta toda a sua fortuna pessoal em busca de uma cura impossível. No auge da sua frustração, Stephen ouve boatos sobre um poderoso Ancião tibetano que o poderia ajudar. Esgotado, o doutor deixa de lado seu grande ceticismo e usa suas últimas posses para encontrar o tal mestre. Porém, em vez de o ajudar a recuperar os movimentos de suas mãos, o Ancião deu a Stephen algo muito maior: corrigiu seu caráter, tornando-o um homem sábio e poderoso, o Mago Supremo.

Os grandes eruditos do yoga nos ensinam que todos os movimentos de nossa vida nada mais são do que um espelho do nosso passado. Através do karma, a dinâmica lei da ação e reação, o cosmos exerce sobre nós sua profunda pedagogia, permitindo que possamos nos deparar com os nossos velhos enganos e corrigi-los. Desta forma, por trás de todo incidente negativo, de toda situação desagradável e lamentável, existe uma valiosa lição, esperando para ser descoberta e aprendida – algo muito facilitado pela atuação de um guru genuíno.

Lição 3: Imortais… Pero no Mucho!

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Thor, o poderosíssimo deus do trovão, é um guerreiro inigualável em combate, sendo louvado e adorado por gerações de vikings. Tamanha força e honra faz que com Thor se torne irresponsável, acostumado a extravagâncias, inconsequente em suas ações e indiferente aos problemas do mundo. Vendo a tolice de seu filho, Odin, o Pai dos Deuses, bane Thor de Asgard, o lar dos deuses nórdicos, e faz com que ele viva na Terra na forma de um deficiente físico, para amadurecer.

Os Vedas nos informam que os deuses são seres de grande poder, longevidade inimaginável e prosperidade inatingível, que vivem em reinos mais sutis do que a Terra, possuindo a grande responsabilidade de administrar o funcionamento do Universo. No entanto, eles ainda são vítimas do ego, podendo experimentar os mesmos defeitos que os humanos, como ira, ciúme e avareza. E quando abusam da sua posição elevada, voltam a nascer como mortais neste mundo imperfeito, para retificarem sua mentalidade e poderem seguir em frente na sua jornada de autorrealização. Exemplos de deuses na literatura do yoga que tiveram de se retificar nascendo novamente na Terra incluem os filhos de Kuvera, o tesoureiro dos deuses, e até mesmo o próprio Indra, deus védico do trovão.

Lição 4: Demônio na Garrafa

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Tony Stark é um engenheiro mecânico, multimilionário e inventor genial. Vitimado pela explosão de uma granada que deixou fragmentos alojados perto de seu coração, Tony criou uma armadura tecnológica que poderia mantê-lo vivo e ainda poderia ser usada para combater ameaças mundiais, tornando-se assim o Homem de Ferro. Tendo enfrentado terroristas, alienígenas, seres de outras dimensões e outros vilões, o verdadeiro inimigo de Stark é o seu alcoolismo, que o levou a quase perder sua fortuna, a amizade de seus companheiros e sua própria sanidade.

O conhecimento espiritual do yoga também explica que todos aqueles que de alguma forma nos prejudicam, traem nossa confiança e nos decepcionam são apenas agentes do nosso próprio karma. Um verdadeiro yogi é conhecido como ajata-shatrava, aquele cujo inimigo nunca nasceu. Tal espiritualista sabe que todos os adversários externos são apenas projeções de suas próprias falhas internas e que seu maior esforço deve residir em combater sua própria ignorância, vícios e falta de misericórdia.

Lição 5: Wakanda, Forever!

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Oculta em meio às densas savanas africanas está Wakanda, um reino milenar repleto de maravilhas tecnológicas construídas com o mais raro metal do mundo, o vibranium. Essa nação é governada pelo heroico Pantera Negra, um combatente do crime empoderado com ciência avançada e o misticismo da erva-coração. Mas a verdadeira força do Pantera está no homem por trás da máscara, o nobre rei T’Challa, um homem simples, preocupado com cada necessidade de seu povo, sempre disposto a se doar pelo próximo.

As sagradas escrituras da Índia mostram que todos possuem um reservatório infinito de felicidade dentro de si mesmos. Mas a única forma de acessá-la é justamente deixando de lado o hedonismo e as preocupações egoístas e cultivar um forte senso de serviço e reverência por todas as entidades vivas, assim como o soberano T’Challa. Paradoxalmente, somos felizes quando abandonamos a própria busca por satisfação pessoal e nos dedicamos ao bem-estar alheio!

Lição 6: O Homem sem Medo

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Certo dia, o jovem Matt Murdock salva a vida de um idoso que seria atropelado por um caminhão, às custas de sua própria visão, que é perdida devido a um tubo radioativo que cai do mesmo veículo. Com o tempo, Murdock percebe que todos os seus demais sentidos se tornaram aguçados e sobre-humanos e vira o herói Demolidor, sempre lutando contra gangues, mafiosos e políticos corruptos. Envolvido pelo que há de pior no submundo de Nova Iorque e com o que há de mais sujo na espécie humana, Matt nunca se deixa corromper, se refugiando nas instruções da sábia freira Maggie. Ele aprende com ela a confiar em Deus, passando então a ser conhecido como “o Homem sem Medo”.

A sabedoria do yoga nos revela que a fonte de todas as nossas dificuldades reside na nossa tendência de querer controlar o mundo, o destino e aqueles com quem convivemos. Para alguém com esta mentalidade, todas as situações passadas de sua vida na qual ele não conseguiu sucesso viram motivo para grande lamentação, e o acúmulo de tais frustrações cria uma sombra sobre o seu coração, gerando ansiedade pelo futuro. Iludida pelo medo do fracasso, tal pessoa mesquinha se deixa corromper em troca de proteções fugazes. Apenas aquele que desenvolveu confiança no controle divino pode abandonar definitivamente o medo e viver com a consciência pura.

Lição 7: Os Filhos do Átomo

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Devido a um súbito salto evolutivo, a raça humana atingiu seu próximo degrau com os Homo Superior, mutantes nascidos de pais comuns, que manifestam poderes extraordinários a partir da puberdade. Temerosa e confusa, a humanidade passa a perseguir os mutantes, fazendo com que muitos deles se revoltem e vivam de forma marginalizada. Para remediar esta situação, o Professor Charles Xavier cria uma escola para acolher e orientar jovens mutantes, de forma que aprendam a usar seus dons para o bem e protejam o mundo como os X-Men.

Na cultura védica, as pessoas socialmente mais relevantes sempre foram os educadores, que, assim como Xavier, possuíam o raro talento de ajudarem seus pupilos a encontrar seu lugar neste mundo, entendendo primeiro a si mesmo e fazendo as pazes com seu próprio karma. Tais tutores eram responsáveis por transmitir tanto conhecimento material quanto sabedoria espiritual para seus alunos, tornando-os pessoas verdadeiramente íntegras. Trazer estes elementos de volta para a educação contemporânea é um grande desafio que teremos que abraçar se quisermos criar uma sociedade mais justa, igualitária e harmoniosa!

Lição 8: Em Família

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Enquanto fazia uma viagem espacial experimental, o cientista Reed Richards e toda sua tripulação tiveram seus genes modificados por raios cósmicos, adquirindo poderes especiais. De volta à Terra, eles decidiram usar suas habilidades incríveis para proteger o mundo como o Quarteto Fantástico. No entanto, todos eles possuíam fraquezas notáveis: Reed é excessivamente frio e incapaz de sentir empatia, Sue tem pouca autoconfiança, Johnny é imaturo, e Ben é temperamental. Ao perceberem tais limitações em si mesmos, eles entendem que suas personalidades e poderes são complementares e que se quisessem ter sucesso não deveriam apenas atuar como uma equipe de heróis, mas, sim, como uma família.

Krishna, o pai do yoga, declara que toda a humanidade é como uma grande família universal, pois todos derivam da mesma fonte divina. Krishna compara também a sociedade humana a um corpo cósmico, onde cada membro tem seu valor: o estômago não pode obter alimentação adequada sem a ajuda das mãos, que por sua vez não podem se nutrir sem o estômago. Da mesma forma, todos os seres são interdependentes e igualmente indispensáveis para o bom funcionamento da sociedade: um simples trabalhador manual que desempenha seu serviço com carinho e esmero, um agricultor consciente e cuidadoso com a natureza, um administrador ativamente dedicado aos bem-estar dos seus subordinados e um filósofo que desenvolveu verdadeiro amor pelo conhecimento – cada um à sua própria maneira está ajudando a criar uma realidade mais harmoniosa.

Lição 9: O Médico e o Monstro

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Ao salvar um adolescente de um acidente em uma instalação militar norte-americana, o pacífico Doutor Bruce Banner foi afetado pela radiação gama, liberando seu alter ego, um monstro esmeralda de proporções hercúleas, chamado Hulk. Inicialmente, sendo movido apenas pela fúria até então contida de Banner, o Hulk vai aos poucos se tornando mais consciente e equilibrado e passa a usar sua força descomunal para ajudar inocentes.

No yoga, aprendemos que todos os nossos defeitos podem ter uma utilidade benéfica, quando adequadamente canalizados, assim como a raiva de Banner. Por exemplo, com a tendência a achar defeitos, alguém pode evitar muitos equívocos, ao cobiçar as qualidades de outra pessoa alguém pode desenvolver o ímpeto para desenvolvê-las também, e através da ira consciente e livre de inveja, é possível combater injustiças.

Lição 10: Avante, Vingadores!

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Para enfrentar ameaças que sozinhos não eram capazes, o Homem de Ferro, Hulk, Thor, Homem-Formiga e a Vespa se unem formando a maior equipe de defensores da Terra: os Poderosos Vingadores! Mas para se manterem coesos e unidos precisam primeiro aprender a tolerar as diferenças entre seus pontos de vista e a terem paciência com os defeitos uns dos outros.

Um dos grandes requisitos da vida espiritual, segundo o conhecimento védico, é justamente trabalhar em equipe com pessoas que possuem a mesma meta. Essa união de forças é conhecida como sat-sanga. Um verdadeiro yogi não é orgulhoso e sabe que sozinho não conseguirá solucionar seus próprios problemas, aceitando agradecidamente todo auxílio que receba. Ao mesmo tempo, ele é muito amoroso e está sempre disposto a fornecer ajuda e aconselhamento para quem precisa. E por entender que sat-sanga pode purificar a todos, ele aceita de bom grado os inconvenientes de ter que partilhar sua vida e missão com companheiros que são cheios de falhas, cultivando assim a arte da humildade.

Lição 11: O Primeiro Vingador

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Devido à sua incapacidade de cooperarem adequadamente, os Vingadores ficam próximos da extinção. É neste momento que eles encontram o corpo congelado de Steve Rogers, herói da II Guerra Mundial, conhecido também pelo codinome Capitão América. Ao ser reanimado, Steve tem que aprender a viver em um mundo que não é seu, já que passou dezenas de anos em coma no bloco de gelo. E como parte do seu processo de readaptação, o valoroso Capitão abraça a missão de liderar os Vingadores, usando sua sobriedade, bondade e lealdade incondicional para fazer com que todos os demais heróis se unam e alcancem todo o seu potencial.

Este é o papel do guru, o espiritualista experiente, que com paciência, entusiasmo e confiança ilumina cada um que se abre para receber suas instruções, que com grande respeito e cuidado disciplina cada um dos seus seguidores, e que constantemente incentiva seus discípulos, realçando o que há de melhor neles. O verdadeiro mestre nunca age com vaidade, senão que representa com desapego seu próprio guru.

Lição Extra

extra“Eu sou Aquele que está acima de Todos. Eu vejo através de muitos olhos. Eu construo com Minhas muitas mãos. Eles são eles, mas eles estão em mim também. Eu sou todo-poderoso. Minha única arma é o amor. O mistério me intriga.”

Com essas palavras, One-above-all (Aquele acima de Tudo), como é conhecido Deus no Universo Marvel, define a Si mesmo. Diferentemente de Thor e outros deuses, One-above-all é sempre transcendental, perfeito, puro, intocado pelo mal.

Quando o Doutor Estranho se encontra com a Eternidade personificada, ela lhe diz: “Eu e meu irmão, Morte, compreendemos toda a sua realidade, ó grande místico! Mas nem ele, nem eu somos Deus, porque Deus governa todas as realidades!”

O próprio Thor certa vez expôs o seguinte pensamento sobre Ele: “Mesmo eu, filho de um dos mais poderosos de todos os deuses, acho impossível conceber tais níveis de poder Dele! E é um pensamento humilhante considerar quão maior o Criador de todos os Universos deve ser do que todas as Suas criações combinadas!”

E mesmo sendo tão poderoso, One-above-all é o ser mais humilde, preocupado com suas mais ínfimas criaturas. Certa vez, quando Peter Parker, o Homem-Aranha, estava sofrendo com a morte da sua tia May, o ser todo-poderoso aparece para ele na forma de um simples mendigo e docemente o consola, explicando que devemos ser amorosos e preocupados com quem convivemos, mas que devemos deixá-los partir tranquilamente na devida hora, já que a alma é eterna e, portanto, está sempre em segurança.

Os Vedas nos revelam que Deus age exatamente dessa forma, sendo pleno de todas as opulências, fonte de toda a energia material e espiritual e raiz da existência. E, no entanto, Ele humildemente entra no coração de cada entidade viva, guiando-as em suas andanças, inspirando-as com insights e dirigindo suas vidas. Além disso, Ele constantemente vem ao mundo como avatar, agindo como uma pessoa comum, intercambiando íntimas relações amorosas com todos, protegendo os espiritualistas, refreando o avanço do mal e ensinando o sagrado caminho do dharma. Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, age exatamente como um simples pastor de vacas, mas Ele também nos presenteou com o grande tratado de espiritualidade conhecido como Bhagavad-gita e Suas palavras profundas e eternas podem transformar o coração de todos, ajudando qualquer um que queira entender o sentido da vida.

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*Polêmica Nerd* – Homem de Ferro: herói americano ou vilão capitalista?

O Homem de Ferro seria um agente do capitalismo e do militarismo americano? Ou é um exagero dizer isso?

A origem do Homem de Ferro: a invasão do Vietnã.


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Na primeira história do super-herói, o título “Nasce o Homem de Ferro” ( lançado no Brasil pela Panini e pela editora Salvat na coletânea Origens) indica a origem do Herói. O protagonista Tony Stark é mostrado em seu laboratório, protegido por segurança máxima, conversando com um general americano sobre a sua mais última invenção para os esforços na Guerra do Vietnã. Uma forte segurança e vigilância para proteger Stark mostra a sua importância para o exército americano, tal como um guarda diz ao outro: “Os comunas dariam um olho para saber no que ele está trabalhando agora!”

Tendo estabelecido a genialidade de Stark como um inventor e produtor de armas e de sua importância para os EUA durante a Guerra Fria, o gibi passa a explicar as suas credenciais como um playboy milionário, “ Anthony Stark…rico, bonito, conhecido como um playboy glamoroso, em constante companhia de belas e adoráveis mulheres…” ele é “tanto sofisticando quanto cientista! Um milionário solteiro, tão a vontade no laboratório quanto na alta sociedade!”

Stark viaja para o Vietnã onde sua tecnologia é necessária para vencer os viet-congs. Depois de uma demonstração de sua tecnologia ele cai numa armadilha, com um ferimento fatal em seu coração, e é feito prisioneiro pelos viet-congs. Seu captor, Wong-Chu – um personagem bestial, chamado de “o tirano da guerrilha vermelha” – planeja enganar Stark, o fazendo gastar seus últimos dias no desenvolvimento de uma nova arma em troca de ajuda médica. Todavia, Stark percebe o truque, “meu último ato” pensa ele, “será a derrota desse sorridente e traiçoeiro terrorista vermelho.” Auxiliado por um dos prisioneiros de Wong-Chu, o grande físico Professor Yinsen, Stark emprega sua habilidade em tecnologia na construção de uma armadura que salvará sua vida, possibilitando sua fuga da prisão.

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O clímax da história é a luta entre Stark e Wong-Chu que permite a fuga do Homem de Ferro e a vingança da morte de Yinsen. No entanto, o embate entre os dois possui uma dimensão ideológica quando o Homem de Ferro declara: “quem hoje desafia os seus desmandos e tudo o que você representa é o Homem de Ferro!”

O retorno dos artistas da Marvel para o gênero do super-herói no início da década de 60 coincidiu com o período particularmente intenso da Guerra Fria e a hostilidade entre o EUA, a União Soviética e a China Comunista em um conflito alimentado por embates indiretos e propaganda. Assim como a primeira geração de super-heróis havia se juntado na guerra ideológica contra o Eixo durante a Segunda Guerra, lutando contra caricaturas do inimigo, assim também fez os novos heróis contra representações superficiais dos soviéticos e comunistas. A própria era “Marvel” havia nascido da Corrida Espacial da Guerra Fria: os quatro astronautas que se tornariam o Quarteto Fantástico embarcam em uma viagem no espaço apesar dos perigos da irradiação. Como Susan Storm ( A Mulher Invisível) explica para o relutante Bem Grimm ( O Coisa) “nós temos que aproveitar esta chance…ao menos que queiramos que os comunas nos ultrapassem”.

Todos os Heróis da Marvel contribuíram para reforçar a propaganda americana da Guerra Fria e a sua visão sobre o “inimigo comunista”, mas nenhum deles foi tão explícito quanto o Homem de Ferro, o mais político dos Super Heróis da Marvel e o mais ardente guerreiro americano durante a Guerra Fria nos gibis. O Homem de Ferro frequentemente se engajava em batalhas que eram claramente (e de modo simplista) ideológicas por natureza : duelos entre o virtuoso ocidente e o traiçoeiro oriente.

Os líderes comunistas retratados em Homem de Ferro frequentemente são grotescos e sádicos, e mesmo os desenhos os retratam dessa forma. São descritos como tiranos, que se valem de trabalho escravo, matam inocentes e fazem a população sofrer.

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Em contraste com os “males do comunismo”, o Homem de Ferro luta em prol de sua nação. Ele é retratado como compassivo até para com os inimigos. Ao passo que os antagonistas comunistas são paranoicos e frios, desumanizados pelo caráter coletivista do seu sistema político e social, o Homem de Ferro simboliza uma solução humana e que prima pelo indivíduo.


Homem de Ferro: O herói do complexo militar industrial


Após o término da segunda guerra, Eisenhower, presidente dos EUA, em seu discurso de despedida havia alertado os americanos sobre a crescente influência e poder do complexo militar industrial americano, assegurando que isto poderia colocar em risco as liberdades civis e a democracia.

Dois anos depois, a editora Marvel lança o “Homem de Ferro”, um super herói que personificava o complexo militar industrial. Nos gibis, Tony Stark é um engenheiro e um industrialista que usa a sua armadura de Homem de Ferro para derrotar muitos vilões, incluindo os comunistas. O gibi promovia então a fusão do empreendedorismo capitalista e da tecnologia como a receita para a vitória na Guerra Fria.

Durante os anos 1960, O Homem de Ferro derrotava inimigos como Dínamo Vermelho, O Homem de Titânio e o Unicórnio ( todos eles supervilões russos comunistas), ressaltando a ideia de superioridade americana sobre a ciência e a tecnologia comunista. O gibi exemplifica como, apesar do conselho de Eisenhower, os americanos acreditavam que as inovações do complexo industrial militar eram algo agressivo, todavia necessários e até benéficos para combater o comunismo e estabelecer a hegemonia global.

Após a Segunda Guerra , a lógica de invenção e produção de armas havia mudado. Antes, as indústrias só desenvolviam e produziam artefatos bélicos em tempos de guerra, revertendo para a produção de itens civis em tempos paz. No entanto, com o advento da Guerra Fria houve cada vez mais lobby e pressão para a criação de uma indústria de guerra que inventasse e produzisse armas em caráter permanente. Desse modo, os governos começaram a fazer contratos bilionários com a iniciativa privada para o desenvolvimento de armas, resultando no crescimento e fortalecimento desta. Com a intensificação da lógica da competição armamentista durante a Guerra Fria, e sua paranóia, os americanos apoiavam cada vez mais os gastos no âmbito militar, achando que desse modo ultrapassariam a capacidade da URSS.

Tony Stark/Homem de Ferro corporificava estes anseios de um complexo militar industrial efetivo e benevolente. Stark não apenas produz armas, mas ele próprio se torna uma arma extremamente eficaz com o seu traje de Homem de Ferro, fornecendo a ideia de que o complexo militar industrial era essencial para derrotar o comunismo. As aventuras do Homem de Ferro dos gibis não apenas ecoava a convicção de que a tecnologia poderia ganhar a guerra, mas também ajudou a fortalecer essa confiança ao mostrar aos leitores o poderio e a necessidade do complexo militar industrial.

Portanto, o Homem de Ferro sem dúvida é um produto da Guerra Fria. Enquanto Tony Stark  lutava contra os comunistas no Vietnã,  ele cria seu traje após um acidente. A maneira como os gibis do Homem de Ferro retrata o Vietnã não é apenas infantil e simplista, mas etnocêntrica também. Os inimigos comunistas do Homem de Ferro são unidimensionais, traiçoeiros e cruéis.

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Com ares de messianismo, o super herói considerava uma missão libertar os camponeses vietnamitas das mãos desses tiranos. Em outras histórias, o Homem de Ferro se envolve em questões internacionais com confiança, certo de que a intervenção americana pode resolver qualquer situação.

De fato, o Homem de Ferro embarca em uma cruzada em nome do capitalismo, democracia e liberdade. Seus criadores ( como Stan Lee) o descrevem como o “O lutador campeão destemido da liberdade” e retratam Stark como possuindo as melhores qualidades do americano moderno: tolerância, ingenuidade, mente aberta e a busca pelo lucro.
As indústrias Stark estão além da dúvida e da crítica. Stark é o “milionário, inventor e manufaturador de armas” que trabalha “incansavelmente” pela “ciência e progresso”.

Embora os gibis do  “O Homem de Ferro” frequentemente exalte “the american way of life” , seus antagonistas também são a supervisão dos funcionários do governo e as críticas do jornalismo da imprensa, limites para a sua atuação tanto em seu país nativo como no exterior. Stark chega até mesmo, com a sua riqueza de milionário industrialista, a comprar uma editora de jornal para produzir propaganda e notícias favoráveis a si mesmo.

Embora o governo e a imprensa questione os métodos e a eficácia do Homem de Ferro, o gibi enfatiza que os esforços do super herói são abnegados e sinceros, visando o melhor para o país. Qualquer subterfúgio que ele pratica é apenas para manter a sua identidade secreta e para proteger a populações de perigos com os quais ela não pode lidar. Os autores retratam Stark como um gênio incompreendido, sugerindo que os americanos deveriam ter mais admiração pelas suas elites capitalistas e tecnocráticas. É como se o Homem de Ferro não quisesse ser criticado nem supervisionado, como se ele considerasse os limites para a sua atuação como incômodos e obstáculos.

Enquanto Eisenhower alertou que o complexo militar industrial era uma ameaça em potencial para a liberdade a democracia, os gibis do Homem de Ferro possuem a mensagem implícita de que a sociedade seria melhor se industrialistas militaristas do calibre de Stark tivessem mais liberdade.

Os gibis mantêm a ideia de que Stark deve ficar acima de qualquer suspeita e controle porque suas armas e tecnologia ajudarão a conter e derrotar o Comunismo.

As complexidades da Guerra do Vietnã e da Guerra Fria eram muitas, mas os gibis do Homem de Ferro as simplificavam de modo infantil. No entanto, militares , generais e até o Presidente dos EUA aparecem nos gibis exaltando a agressividade, a intervenção, as armas e apoio do Homem de Ferro na luta contra o Comunismo.
Apesar das crescentes dúvidas sobre progresso, metas e as éticas na Guerra do Vietnã, o Homem de Ferro não apenas se envolve no conflito, como também fornece a tecnologia necessária para vencer.

A glaumourização das tecnologias bélicas, das armas e da violência fazia parte da Guerra Do Vietnã. O poder de destruição das novas tecnologias embriagava os militares. Havia mesmo uma erotização das armas de guerra, e certamente o Homem de Ferro encarna este conceito, com a sua armadura viril cheia de músculos mecânicos.

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O problema é que todo o poder de fogo do exército americano gerou um sofrimento sem precedentes no povo vietnamita. Milhares e milhões de civis foram mortos de maneiras cruéis. Todavia, os autores do gibi teimosamente se recusavam a reconhecer os malefícios do poder de fogo, mesmo no que tange à estratégia. Os autores do gibi ao escreverem as histórias colocavam a culpa da destruição em massa do território e da população vietnamita nos próprios comunistas. Em uma deles, um vilão comunista deliberadamente destrói o Vietnã e coloca a culpa nos Estados Unidos, com a intenção de “manchar” a reputação do exército americano.

Milhares de Toneladas de Armas químicas e explosivas norte-americanas destruíram e incapacitaram o solo e o povo vietnamita, com sequelas gravíssimas até os dias de hoje. Todavia, os escritores do Homem de Ferro ainda colocavam o exército americano como o salvador das pessoas do Vietnã.

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A armadura de Homem de Ferro implicitamente passava a ideia de que um soldado bem intencionado poderia vestir a roupagem e o aparato militar americano e se tornar invencível. Mas ao invés deste triunfo fantasioso, a realidade que ninguém queria ver era a quantidade de veteranos americanos que se tornavam deficientes após serem mutilados no conflito.

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Sem dúvida, os gibis foram um dos responsáveis por incentivar os jovens a irem lutar e morrer na Guerra do Vietnã e da Coréia. O Homem de Ferro contribuiu para tal.

O Homem de Ferro alcançou maiores níveis de popularidade na era de Guerra ao Terror, demonstrando as maravilhas da tecnologia bélica nos três filmes. O primeiro filme inclui reflexões breves nas responsabilidades dos produtores de armas como Stark, mas apenas conclui que o mundo ficaria em perigo se estes incríveis armamentos caíssem nas mãos erradas – nunca considerando se as intervenções americanas eram corretas ou justificáveis.

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Como foi observado “ cada geração está destinado a lutar a sua guerra, a passar pelas mesmas velhas experiências, sofrer as mesmas perdas a as mesmas ilusões e assim aprender as mesmas velhas lições”. O Homem de Ferro, criado para reassegurar os americanos de sua dominância ingênua da tecnologia e sua capacidade ilimitada em propagar a liberdade, continua firme.

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Este texto é um resumo de dois artigos acadêmicos sobre o Homem de Ferro, contidos no livro “The Ages of Iron Man: Essays on the Armored Avenger in Changing Times” editados por Joseph J. Darowski, e lançado pela editora McFarland & Company.

Os artigos são:

“The Iron-Clad American: Iron Man in The 1960s ” – Brian Patton

“Ike´s Nightmare: Iron Man and The Industrial Military Complex” Will Cooley e Mark C. Rogers

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Homem Animal – o super-herói vegetariano contra a exploração dos animais

Acaba de chegar às bancas, pela editora Panini, o primeiro volume de O Homem Animal, o Super Herói vegetariano e ativista do direitos dos animais.

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Super Heróis.

Eles combateram alienígenas fascistas, praticantes de magias ocultas e malignas,  loucos pirados de hospícios sombrios, magnatas industriais e barões da mídia , reis do crime etc etc… todas as ameaças que certamente destruiriam a humanidade.  Eles nos salvaram do sofrimento,  exploração, tortura e morte.

Nós, terráqueos, somos eternamente gratos.

Mas e quanto aos animais? Estariam os Super Heróis indiferentes ao sofrimento destes outros seres? Afinal, os animais também vivem na Terra e também podem ser chamados de terráqueos.

E os ursinhos pandas à beira da extinção? E os poodles indefesos espancados por donos surtados? E os gatinhos que não conseguem descer de uma árvore?

Os Super Heróis também não os protegem?

Claro que sim.

Eles não são apenas “Heróis”. Eles são “Super”.

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Todavia, a questão fica delicada quando se fazem as seguintes perguntas: e os milhões de animais ( gado, aves e suínos) abatidos diariamente na indústria alimentícia da carne? E os que estão sendo mortos para ter sua pele vendida no mundo fashion da moda? E os milhares de macacos, cachorros beagles e camundongos que estão sendo torturados em procedimentos científicos de vivissecção neste exato momento?

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Para tais questionamentos, temos uma boa notícia: o gibi do “Homem Animal”, o super herói vegetariano e ativista dos direitos dos animais, está sendo reimpresso no Brasil pela editora Panini.

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Capa do primeiro volume do gibi Homem Animal, disponível nas bancas e lançado pela editora Panini.

A seguir, refletiremos sobre o primeiro volume recentemente relançado, “Homem Animal – O Evangelho do Coiote”, que nos ajudará a responder tais indagações cósmicas.

Excelsior!


Homem Animal e o Super Herói e seu papel dentro de um mundo político e social.


O encontro dos super heróis com problemas mais próximos do nosso cotidiano (políticos, sociais e ambientais) sempre esteve presente. As primeiras histórias de Superman por exemplo mostram o filho de krypton lutando contra espancadores de mulheres, pobreza e políticos corruptos. Lanterna Verde e o Arqueiro Verde, na clássica série da década de 70, percorrem o E.U.A enfrentando males sociais como o vício em drogas, racismo e poluição.

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Mais recente, o célebre desenhista Alex Ross ilustrou uma coleção em que Superman luta contra a fome no mundo assim como outros heróis da DC enfrentam problemas sociais e políticos.

Em outra linha,  V de Vingança, Watchmen e Marshal Law problematizaram a própria questão dos super-humanos. Se existissem super heróis de verdade em nosso mundo ( se é que não existem), eles estariam reprimindo ou libertando a população em geral? Estariam do lado do neoliberalismo? Do imperialismo? Do comunismo? Do socialismo?  Do capitalismo? Do fascismo? Das elites ? Ou das massas?


Super Herói. Ser ou não ser. Eis a questão.

Todavia, nesta miríade de temas e problemas sociais ( isto quando não estão lutando contra forças titânicas alienígenas) a ser enfrentado pelo super-heróis, ninguém havia tocado em uma questão quase invisível, mas crucial: E os animais? Quem poderá defendê-los?

No gibi “Superman-Legado das Estrelas”, o Super-Homem explica que com a sua super-visão extraordinária consegue ver as auras dos seres. Ele diz que as coisas vivas emitem uma aura luminosa, uma espécie de efeito da alma presente no corpo. Quando um ser chega ao fim de sua vida, essa aura presente no corpo desaparece, como se a alma tivesse deixado o corpo. O que resta, segundo ele, é o corpo inanimado, algo vazio, e se alimentar de coisas vazias o deixa de certa forma vazio também. Por isso ele diz ter se tornado vegetariano.

Apesar disso, nenhum super herói, nem mesmo o quase messias Superman, havia levado a fundo a questão dos direitos dos animais. Mas surgia um vigilante que estava prestes a mudar tudo isso. Ele não apenas seria vegetariano, mas lutaria contra toda a exploração animal, na terra e no mar, e seu nome não poderia ser mais conveniente: O Homem Animal.


O Homem Animal: vegetarianismo e o direito dos animais.


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Na década de 80, a editora DC contratou roteiristas britânicos para revitalizar o seu conteúdo, como por exemplo o autor Allan Moore em “Monstro do Pântano” e Neil Gaiman em “Sandman”.

Grant Morrison encarregou-se do Homem Animal, obscuro super herói de terceiro escalão. O autor escocês não só revitalizou o personagem, proporcionando sucesso de vendas, como escreveu histórias que até hoje são consideradas de vanguarda.

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O roteirista Grant Morrison

Mais do que isso. Grant Morrison fez com que um super herói pela primeira vez se preocupasse com a questão do sofrimento e exploração animal:

Eu ficara horrorizado com as cenas pungentes de um documentário sobre direitos dos animais e uma única sessão foi o suficiente para me converter ao vegetarianismo. Vi como usar o Homem-Animal como porta-voz contra a crueldade com os animais e a degradação geral do meio ambiente, assim como para exames mais aprofundados do super-herói enquanto ideia.” (Superdeuses)

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O Homem Animal mostra sua revolta contra animais torturados em procedimentos científicos de vivissecção.

Em 1976, o filósofo Peter Singer lança o  livro “Libertação Animal” que contribuiria de modo significativo para uma maior percepção do público em relação à condição dos animais, especialmente na indústria e na ciência. Tal livro ajudaria a turbinar o movimento Frente de Libertação Animal.

“O aspecto importante de ter trabalhado em HOMEM-ANIMAL foi não só que a revista deu uma plataforma para minha perspectiva ranzinza e progressivamente misantrópica a respeito dos direitos dos animais. Ela também me incentivou a aliar os atos às palavras. E assim se deu que, pouco depois de começar a trabalhar em HOMEM-ANIMAL, afiliei-me aos apoiadores da Frente pela Libertação Animal e comi o último bife da minha vida.” ( Introdução do Homem Animal – O Evangelho do Coiote)

Contudo, a ideia de animais terem direito parece incomodar uma parte significativa da sociedade, especialmente aquela aliada à grande mídia e à lógica do capital. Já que estamos no “topo da cadeia alimentar” não seria nosso direito biológico comer carne? Por acaso nosso corpo sobreviveria sem a proteína da carne? As experiências em animais não seriam necessárias para o avanço da sociedade ( tecnologia e ciência) e para a proteção dos humanos?

São chavões repetidos a exaustão.

Um Super Herói como o Homem-Animal, que luta pelos direitos dos animais, é realmente um benfeitor? Não seria ele um fanático extremista utópico?


Exploração dos animais


De acordo com o livro do filósofo Peter Singer há uma tirania dos animais humanos sobre os animais não-humanos:

Esta tirania provocou e provoca ainda hoje dor e sofrimento só comparáveis àqueles resultantes de séculos de tirania dos humanos brancos sobre os humanos negros. A luta contra esta tirania é uma luta tão importante quanto qualquer outra das causas morais e sociais que foram defendidas em anos recentes.” ( Libertação Animal)

A comparação da escravidão industrial moderna dos animais à condição dos escravos é pertinente. Como os escravos, os animais são desprovidos de direitos, ele são mais “coisas”. Quando se é considerado uma “coisa”, ou algo de status inferior, abre-se procedente para subjugação e exploração. O sexismo também encara as mulheres mais como “coisas”, por isso passivas de violência. Não por acaso o primeiro volume de “Homem Animal” faz uma relação entre isso, ao mostrar um caçador sádico de animais que tenta abusar sexualmente da mulher do super herói.

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O documentário “Terráqueos” ( disponível no youtube), também faz esta relação. Quando se reduz um ser a condição de “coisa”, ou inferior, abre-se precedente para explorá-lo de todas as formas.

De fato, seja na agropecuária, na indústria alimentícia, no mercado das peles para roupas fashion ou em experiências científicas com cobaias, os animais são sujeitos à humilhação, sofrimento, tortura e morte. Os fatos, vídeos e fotos falam por si só. Eles sofrem e sentem dor, como qualquer um de nós. Não são apenas autômatos, ou meras máquinas, são seres vivos, com sentimentos. Qualquer um que tenha interagido com um cachorro ou gato de estimação sabe disso.

O problema é exatamente este. Ao mesmo tempo que consideramos um crime maltratar cães e gatos, fechamos os olhos para a grande exploração dos animais que está a nossa volta e na qual contribuímos até mesmo ativamente.

E os bois, vacas, bezerros, aves, porcos, macacos e peixes? Não são também animais que não merecem sem maltratados? Por que privilegiamos alguns e esquecemos de outros? Por que achamos que temos o direito de infligir dor e sofrimento, de modo sistemático e diário, a outros seres vivos?

Tudo em nome da “progresso” e “ciência”?

 

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“São animais mortos. Faz alguma ideia das condições terríveis que esses animais padecem antes de serem tocados para o matadouro e virarem comida na casa de alguém?” – Trecho do gibi O Homem Animal.

 

Se achamos que temos este direito então vamos supor que no mundo dos gibis, uma raça alienígena, superior a nós em atributos físicos e mentais, decida invadir a Terra e nos escravizar. Não só isso, estes seres alienígenas pretendem construir campos de concentração com seres humanos, no qual serviremos  não só de alimento, mas como cobaias em diversas experiências científicas para o avanço da ciência deles. Isto não seria correto? Não é o que prega a conclusão lógica da teoria de Darwin, “a sobrevivência do mais forte” ou do “mais adaptado”?  Por que então deveríamos resistir?

Nesta lógica, qualquer Super-Herói que lutasse contra estes alienígenas, estaria fazendo apenas por apego material à humanidade, e não por lutar pelo “bem e justiça”.  Assim, em uma perspectiva darwinista e materialista, até os conceitos de “bem” e “justiça” seriam artificiais, meras ilusões de tempo e lugar.

Sentimos, como uma intuição, que a resposta correta não é essa. Mesmo os  grandes filósofos mais antigos da humanidade já afirmavam que o sentimento de “compaixão” é intrínseco à consciência humana. Somos compassivos por natureza. De acordo com Mêncio ( discípulo de Confúcio), importante filósofo da China Antiga, ser humano é justamente isto: ter qualidades humanas como a compaixão. Isto é, fundamentalmente, o que nos define como humanos. Isto é o que nos separa da barbárie, na qual reinam exploração e violência.

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Por que então não estender este sentimento não só para todos os seres humanos, independentemente da sua etnia ou posição social, mas também para os animais? Em uma perspectiva sci-fi poderíamos até estender este sentimento para os alienígenas. Superman é um super herói altamente compassivo, ele fez um voto de nunca matar um ser vivo.

Dentro de uma perspectiva mais ampla, os animais também seriam terráqueos e também seriam membros do Estado.

Srila Prabhupada, um dos maiores expoentes do hinduísmo, tradutor do clássico “Bhagavad-Gita Como Ele É”, afirma no comentário de uma de suas traduções:

“Por que deveria o homem matar animais para seus propósitos egoístas? Por que há matadouros em todo mundo para matar animais inocentes? Por que não deveria um líder executivo proteger a vida dos pobres animais que são incapazes de se defenderem? Isso é humanidade? Por acaso os animais também não são cidadãos de um país?  Então por que se permite que sejam esquartejados em matadouros organizados? Acaso esses são os sinais de igualdade, fraternidade e não-violência?” ( Srimad Bhagavatam 1/10/5)

Sendo assim, faz todo o sentido que exista um Super Herói que se torne um vegetariano e lute para defender os animais.

Como diz Peter Coogan, especialista na literatura super-heróica:

“Um Super Herói é um protetor dos oprimidos que combate o mal e a injustiça. A missão do Super- Herói é abnegada e para o bem estar social.”

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em algum lugar macacos gritam…gritam…e gritam” – trecho do gibi Homem Animal, em que critica a vivissecção em animais.

 


 Homem Animal contra os cientistas loucos


 

No livro seminal de Peter Coogan,  “Superhero: the secret origin of a genre”, sobre o gênero de Super Herói, é enumerado cinco tipos de supervilões que permeiam as histórias, um deles é o clássico “cientista louco”

“Na sua busca de dados para conhecer mais as leis da natureza, por mais que tenha uma intenção altruísta, o cientista louco geralmente compreende mal – ou falha totalmente – na percepção sobre as dimensões morais de suas experiências; e esta falha de percepção deforma radicalmente sua consciência.”

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Este é o principal vilão da primeira história do Homem Animal: O cientista louco. O que nos surpreende na história é que ele é um cientista padrão. Testar produtos, inocular doenças, mutilar, desmembrar e dissecar animais vivos são rotinas feitas diariamente em laboratórios científicos. Milhões de animais são mortos por ano nestes procedimentos.
Assim o cientista da história não faz nada além do que já se faz no cotidiano. E é isto que nos choca. “A irracionalidade da racionalidade científica”, como diria o filósofo Herbert Marcuse. Ou seja, a loucura da “normalidade” de nossa própria sociedade. Este tema é reverberado aqui e acolá por Grant Morrison em Homem Animal.

 

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“gente que tortura e mutila em nome da ciência e sai impune para fazer tudo de novo” – trecho de o Homem Animal.

Pode-se argumentar que tudo isto ( as vivissecção em animais) é feito para o bem geral, para desenvolver vacinas, medicamentos etc. Mas pela história do gibi, fica claro que o cientista o faz para o lucro da indústria farmacêutica e da indústria bélica ( como as armas químicas e biológicas).
Assim os mitos do “progresso” e de “avanço da ciência” mascaram um lado sombrio de todo o processo, sendo a tecnologia um instrumento de dominação e exploração, começando pelos animais.

“Creio que a questão dos direitos dos animais deva ser vasta e complexa demais para se resolver nas páginas de um gibi de super-herói, mas , se HOMEM-ANIMAL ajudou a alertar um leitor quanto às atrocidades inconcebíveis que se comete diariamente em nome da pesquisa científica, já terá valido a pena.” (Introdução do Homem Animal – O Evangelho do Coiote)

 

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Bibliografia

1-) O Homem Animal ( gibi) / Autor: Grant Morrison / Editora: Panini

2-) Libertação Animal ( livro) / Autor: Peter Singer / Editora: Lugano

3-) Terráqueos ( documentário) ? link no youtube

4-) Bhagavad-Gita Como Ele É / Autor: Srila Prabhupada/ Editora BBT ( Bhaktivedanta Book Trust)

5-) Mencius / Autor: D.C. Lau / Editora: Pinguin Books

6-) Ideologia da Sociedade Industrial / Autor: Herbert Marcuse / Editora: Edipro

7-) Superdeuses / Autor: Grant Morrison / Editora: Seoman

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O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 3 – Raças da Terra-Média

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Os Vedas ( as escrituras da Índia antiga) nos ensinam que o mundo material é constituído de três atributos básicos, chamados gunas, que influenciam todas as ações exercidas neste mundo. Desta forma, nenhuma atividade é boa ou má em si mesmo, podendo ser executada sob o domínio de qualquer um dos gunas e estando sujeita a sua qualidade específica, como será explicado de forma mais detalhada adiante.

Como sabemos, na Terra-Média habitam diferentes raças, com suas próprias características físicas, psicológicas, línguas e culturas, então analisaremos agora algumas das principais, usando para isso os gunas.


Orcs


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Uma raça de seres corruptos que servem por temor a Melkor (e posteriormente a Sauron e Saruman), são de aparência horripilantes, possuindo uma tez desbotada, braços compridos, costas arqueadas e feições abjetas. Mas pior do que sua compleição é sua índole, pois são cruéis, destituídos da capacidade de realizarem julgamentos morais, sempre vorazes e sem nenhuma meta para sua existência. De fato, sua única preocupação é sobreviver, mesmo à custa de atos hediondos.

O guna que define os orcs é tamas, o modo da natureza que induz as pessoas a letargia, a passividade e a busca por pequenos prazeres hedonistas conseguidos sem muito esforço. Sob a sua influência, naturalmente se manifestam o sono, a indolência e a falta de objetividade, de forma que a existência da pessoa condicionada por tamas parece se reduzir a uma mera tentativa de atender as suas próprias demandas corpóreas.


Anões


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Raça de origem muita antiga, tem como características principais a sua baixa estatura, se comparados com homens e elfos, sua compleição larga e robusta e sua espessa e vasta barba, bem como sua extraordinária habilidade em trabalhar com metais. Excelentes artificies, os anões são dotados de uma grande capacidade criativa. Seu temperamento é marcado pela sua honradez, apego a suas próprias tradições, pelos fortes vínculos que estabelecem com seus parentes e amigos, bem como por seu orgulho, teimosia, senso de vingança e ganância.

O guna que rege a vida dos anões é rajas, cuja influência conduz a paixão, imediatismo, grande apego, esforço intenso e desejos incessantes. Alguém condicionado por rajas possui metas em sua vida, mas não considera os seus resultados para os outros, nem para si mesmo a longo prazo. Ele também fica demasiadamente preso aos conceitos de sucesso e fracasso. Desta forma, ele desfruta de uma alegria febril e histérica caso seja bem sucedido em seu intento, esquecendo-se que neste mundo tudo é efêmero e que estamos sempre sujeitos a perder aquilo que conquistamos, e sofre e se deprime exageradamente caso malogre em seu empreendimento.


Elfos


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São os primogênitos entre as raças da Terra-Média e os primeiros a falarem, sendo mais antigos que o Sol e a Lua. Imortais, os elfos não adoecem, nem envelhecem. Naturalmente belos, possuem compleição alta e esguia, são amantes das artes, famosos por suas melancólicas e nostálgicas canções. Também são grandes arquitetos e escultores, estudiosos eruditos e notadamente conhecedores das artes de cura. Possuindo uma estrutura familiar extremamente coesa, os elfos só se casam uma única vez e nunca se entregam a luxúria. Eles não costumam consumir seu tempo com frivolidades, preferindo o cultivo de conhecimento. Apesar de sua cultura avançada, devido a sua superioridade em relação aos mortais, os elfos por muitas vezes se tornam insensíveis ao seu sofrimento, sendo arrogantes e frios com outras raças e voltados para os seus próprios interesses.

Sattva é o guna que influencia a vida dos elfos e suas características são a busca pela bondade, harmonia e equilíbrio. Aqueles condicionados por sattva normalmente se inclinam a filosofia, belas artes e ciências. Eles gradualmente desenvolvem um senso de piedade e uma tolerância para austeridades e sacrifícios, caso estes tragam benefícios para si e para os demais a longo prazo. Gravidade, limpeza e autocontrole são virtudes que se manifestam neles espontaneamente. Mas sattva também possui um ponto fraco: devido a sensação de crescente felicidade que ela proporciona, aqueles por ela regidos muitas vezes se acomodam e interrompem seu progresso espiritual. Estando numa plataforma de vida superior, às vezes eles negligenciam os demais, que não são tão evoluídos e refinados quanto eles.


Algumas considerações adicionais sobre os gunas


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Como dito anteriormente, cada ação pode ser executada sobre a influência de um guna específico. Por exemplo, caso alguém dê caridade considerando cuidadosamente se a sua doação será bem utilizada e por uma questão de dever, sem esperar qualquer recompensa em troca, então este é ato é sattvico. Caso a caridade seja feita com algum tipo de expectativa, como por exemplo, a obtenção de uma boa reputação, então ela é rajasica. Agora, se ela for feita de forma sentimentalista, sem nenhum tipo de consideração do seu uso, como por exemplo, o dinheiro dado a um drogado que o usará para se degradar ainda mais, é dito que essa caridade é tamasica. E o mesmo se aplica para tudo o mais que se pode fazer neste mundo.

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Os gunas competem entre si pela supremacia. Desta forma, ninguém está sob a influência unicamente de um guna exclusivo, senão que simultaneamente dos três, sendo um deles proeminente. Assim, mesmo alguém sob o regime de sattva pode exibir traços de tamas, como é o caso do chefe dos guardas da Floresta das Trevas, que ao se entregar a bebedeira deixou de lado seu dever de vigiar os prisioneiros.

E obviamente, dependendo do tipo de mentalidade que alguém cultive, o guna proeminente pode mudar, bem como os níveis de influências exercidos pelos demais gunas sobre ele.

Enquanto persistir a influência dos gunas sobre uma pessoa, ela ainda estará sujeita ao materialismo. Apesar da nítida superioridade de sattva para alguém interessado em desenvolver sua consciência, mesmo este guna deve ser transcendido. Só se atinge plena iluminação quando todos os gunas estão ausentes. Neste estágio, a alma exibe uma bondade pura, sem a mácula de rajas e tamas. Nesta fase também não existe o perigo de se menosprezar alguém como em sattva, pois o ser iluminado percebendo claramente a natureza espiritual de todas as entidades vivas torna-se equânime e amigo de todos.

Sendo a iluminação uma plataforma bem elevada e difícil de ser conquistada, os Vedas recomendam que a pessoa tente se manter predominantemente em sattva até que se alcance este nível, lembrando bem que este guna é um ótimo meio, mas nunca a meta. Assim, alguém que está em sattva e conscientemente se esforça para continuar avançando, pode usar até mesmo a influência que sofre de rajas e tamas de forma positiva, usando, por exemplo, o impulso criativo de rajas para começar novos empreendimentos altruístas e a passividade de tamas para poder fazer uma imersão saudável no ócio criativo e na reflexão ponderada de suas atitudes. Podemos ver um exemplo disto nos hobbits.


Hobbits


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Povo aparentado dos Homens, são bem conhecidos pelo seu pequeníssimo tamanho, pelos seus pés e mãos grandes e peludos e pela sua falta de curiosidade em relação a tudo que se passa fora da sua terra, conhecida como Condado, e por serem adeptos de uma vida o mais simplificada possível.
Um hobbit certamente não perde seu tempo com indagações filosóficas, pois acha que ele seria mais valioso se despendido com comidas, bebidas, um descanso tranquilo e uma boa erva-de-cachimbo. (Características de tamas.)
No entanto, sabem defender sua terra e seu povo quando necessário, pois são silenciosos, acostumados a andar pelo seu território sem serem percebidos a ponto de outros acreditarem que sua furtividade é mágica, além de serem razoáveis arqueiros.
Entre os hobbits existiram até mesmo casos (raros) de guerreiros famosos, como o lendário Bandobras “Urratouro” Tûk, que com sua perícia em combate conseguiu derrotar o líder dos orcs que invadiam Golfinbur, na Batalha dos Campos Verdes (além de ter inventado o golfe…). (Característica de rajas.)
E é claro que os hobbits também são notáveis pela sua predileção por uma vida natural, sem grandes engenhos desnecessários, evitando assim a criação de necessidades artificiais. (Característica de sattva.)

Bilbo Bolseiro é um caso interessante, pois estava habitualmente situado em sattva (era muito erudito, um poeta nato, escritor e tradutor), mas usou a influência de rajas quando necessário (para ter o ímpeto necessário para lutar e fugir de perigos) e a passividade de tamas para não se absorver mais do que o necessário na fortuna que herdara após a Batalha dos Cinco Exércitos.

Assim como os hobbits exibem interações dos três modos, da mesma forma ocorre conosco. E o yogi, o mestre dos sentidos e senhor de suas ações, é aquele que consegue estar atento as influências que está recebendo dos modos, se esforça para se situar na bondade sattvica e usa a paixão rajasica e a inércia tamásica a seu favor, como Bilbo.

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Continua…

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Viagem no Tempo de “Interstellar” e de Einstein já era descrita há 5.000 anos atrás.

Escrituras da Índia Antiga ( os Vedas), Mitos Celtas, Chineses e Japoneses já descreviam a viagem no tempo do Filme “Interstellar” e de Albert Einstein.

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Viagem no tempo. É possível? Esta ideia tanto tem sido uma das motivações para estórias surpreendentes da ficção científica quanto tem intrigado físicos. Ultrapassar os limites do Tempo parecer ser até mais desafiador do que superar os limites do Espaço ( e possivelmente ambos estão conectados). Nascimento, velhice e morte. Parece que nossa consciência almeja por libertar-se destas barreiras. Há algo que nos diz que há um fator dentro de nós que aspira por superar os limites temporais. Talvez este desejo interno seja um dos motivos pela busca da imortalidade, seja através de especulações e tentativas de caráter científico/materialista, seja através da transcendência da consciência, própria da poesia, das religiões e do misticismo.

O último filme do diretor Christopher Nolan, “Interstellar“, tem o Tempo como um dos temas principais. Apesar do filme ser quase um tributo aos poderes do homem e da ciência (em oposição a outra corrente da ficção científica que crítica a sujeição da homem perante à tecnologia/ciência) e não representar a melhor realização de Nolan ( que teve o seu canto de cisne em “O Grande Truque”), a obra apresenta um aspecto interessante que faz parte do mundo da ciência moderna, da ficção científica e dos mitos antigos da humanidade: Viagem no Tempo. Este tema faz parte da tradição sci-fi. Para citar alguns: a franquia “Exterminador do Futuro”, “Planeta dos Macacos” , ” De Volta ao Futuro”, “Efeito Borboleta” e “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido” e “Dragon Ball Z”. O conto de ficção científica do século 19 do autor H.G Wells, “Máquina do Tempo”, pode ser considerado uma das obras axiais do gênero. Nela, o protagonista realiza viagens de milhares de anos  no futuro.
No entanto, viajar no tempo, especialmente para o futuro, não é algo que apenas faz parte da obras pop e das teorias da física moderna. Viagens no tempo ( com alto grau de detalhes) já eram descritas nas estórias antigas, especialmente nas narrativas dos Vedas ( as escrituras milenares da Índia Antiga). A seguir analisaremos o conceito de  “Dilatação de Tempo” da teoria da relatividade de Einstein com aspectos do filme Interstellar e com as narrativas antigas celtas, chinesas, japonesas e védicas (referente aos Vedas da Índia Antiga).


Dilatação do Tempo e “Interstellar“: 23 anos em 3 horas


Um dos aspectos mais interessantes do filme “Insterstellar” é a forma como é mostrada o conceito de “Dilação de Tempo”. Os protagonistas decidem visitar o planeta Miller, próximo a um buraco negro chamado Gargantua. Esta proximidade com a gravidade intensa do buraco negro, faz com que o planeta tenha uma diferença de tempo muito grande: cada hora neste planeta equivale a 7 anos para as pessoas que estão fora dele. Os protagonistas astronautas acabam passando 3 horas no planeta, que é composto de água e ondas colossais, e quando conseguem deixar o planeta e voltar para a base espacial, reencontram lá o colega astronauta Romilly, 23 anos mais velho. Para eles foram 3 horas, para Romilly foram 23 anos.

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De acordo com a Teoria da Relatividade de Einstein e com verificações empíricas na ciência física, isto realmente é possível. O tempo, diverso do conceito de Newton como algo absoluto, é diferente em diversas partes do universo, uma das razões seria a gravidade. Um astronauta que passasse muito tempo no espaço, com menor força da gravidade, envelheceria mais rápido em relação às pessoas na Terra, onde a gravidade é maior.
Outro exemplo, vamos supor que de algum modo astronautas conseguissem chegar a uma planeta em que a gravidade fosse o dobro da Terra. Enquanto eles vivessem nesse planeta, com maior gravidade, envelheceriam mais devagar em relação às pessoas que vivem na terra. Ou seja, a quantidade de gravidade de um planeta determina a diferença de como transcorre o tempo em relação a um outro planeta de gravidade diferente.

No entanto, o tempo “correria” de forma comum tanto para as pessoas da Terra quanto para os astronautas em um planeta com o dobro da gravidade da Terra.   Elas não perceberiam mudanças no tempo a não ser que se encontrassem depois, constatando que os astronautas envelheceram menos e os terráqueos mais. Portanto  o tempo só passaria mais devagar para os astronautas, habitando um planeta com maior gravidade, em relação ao tempo das pessoas da Terra, com menor gravidade. Nenhum dos habitantes dos dois planetas perceberiam as diferenças no dia a dia em seus respectivos planetas. A diferença de idade, e como o tempo foi diferente em cada um dos planetas, seria percebida apenas se encontrassem um ao outro

O anime Dragon Ball Z apresenta um exemplo disso na Câmara Hiperbólica do Tempo. Um dia dentro desta Câmara equivale a um ano fora dela.

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Este conceito é demonstrado de forma clara no episódio do Planeta Miller em “Interstellar”. No entanto, tal conceito não faz parte apenas da teoria da relatividade de Einstein e das verificações da física moderna. Ele já existia nas narrativas antigas de outros povos e as semelhanças são impressionantes.


“Dilatação do Tempo” nos Vedas ( As escrituras da Índia Antiga): Milhares de anos em um segundo.


Os Vedas são as escrituras mais antigas da humanidade. Também estão entre as mais sofisticadas. Estes imensos textos da Índia Antiga são a base de todas as linhas religiosas e filosóficas do que por convenção se chama de Hinduísmo. O legado do conhecimento védico para a humanidade é imensurável. Desde a trigonometria até as artes marciais orientais, praticamente quase tudo o que existe no campo do conhecimento humano parece ter se originado ( ou ter tido uma grande influência) da Índia. Não por acaso, que desde a Antiguidade, a Índia representava a terra prometida, o lugar da riqueza e do conhecimento.  O Sânscrito por exemplo, a língua em que se está escrito os Vedas, é conhecido pelas suas refinadas regras gramaticais. O alfabeto Devanagari ( “A escrita dos Deuses”) é um exemplo. Enquanto o alfabeto grego e latim antigo não possuem uma ordem lógica, o alfabeto do sânscrito é científico. Estudar ele, a ordem das letras, por si só já é uma aula de linguística.
No campo da espiritualidade e da filosofia, os Vedas estão entre os textos mais influentes e estudados. O Bhagavad-Gita ( “A Poesia do Ser Supremo”) por exemplo era estudado por figuras diversas, inclusive cientistas: J. Robert Oppenheimer ( famoso e influente físico que se tornou infame pela construção da bomba atômica), Herman Hesse, Sunita Williams ( destacada astronauta) , Carl Jung, Gandhi, Aldous Huxley, para citar alguns.

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Esta riqueza intelectual dos Vedas também está na cosmologia e na forma como eles compreendiam o Tempo. Suas escalas temporais vão desde o tempo que o sol leva para percorrer um átomo ( relógio atômico) até o tempo de duração de todo o universo. A ideia de “Dilatação de Tempo” de Einstein mostrado no filme Interstellar também faz parte do universo dos Vedas. Estas escrituras apresentam informações elaboradas das diferenças temporais de diferentes galáxias e sistemas planetários.  De acordo com estes textos milenares ( escritos há 5.000 anos atrás) planetas e sistemas planetários ( chamados de “lokas”) da porção superior do universo ( de acordo com a cosmologia védica o universo é fundamentalmente divido em três partes: inferior, média e superior. Este esquema tem forte semelhança com a cosmologia nórdica, grega e judaica) teriam uma forte Dilatação de Tempo em relação ao tempo terreste. Por exemplo, no primeiro planeta do universo, chamado de Brahmaloka, a Dilatação de Tempo seria imensa. Neste lugar cada segundo equivaleria a 98.630 anos terrestres.

A escala colossal de como os Vedas lidam com a relação tempo/universo pode ser verificada também na seguinte informação encontrada nestas escrituras: A duração de todo o universo seria de 311 trilhões e 40 bilhões de anos. Nenhuma cultura antiga pensava em números tão altos. A única que chega perto eram os Maias. Quando os europeus das navegações entraram em contato com estas duas culturas, o conceito de um universo tão antigo, utilizando números na casa dos bilhões, certamente influenciou uma nova visão do cosmos por parte da Europa.

Carl Sagan disse certa vez

” A Religião da Índia é a única fé do mundo que possui uma concepção de Cosmos que passa por um imenso, infinito, números de mortes e renascimentos. É a única religião na qual as escalas de tempo correspondem com a da cosmologia científica moderna. “

O conceito de múltiplos universos também está presente na cosmologia védica.

O Conceito de Dilatação de Tempo é detalhadamente explicado nos Vedas ( Como o Bhagavad-Gita) e há muitos casos semelhantes ao episódio do Planeta Miller do filme Interstellar. Só que de maneiras muito mais extremas, porque segundo os Vedas conforme se avança nos sistemas planetários superiores a Dilatação de Tempo aumenta.

Como diz o pesquisador e cientista Richard L. Thompson

“A literatura védica aponta a existência de uma hierarquia de sistemas planetários, os quais também podemos considerar como mundos paralelos. O sistema mais elevado é Brahmaloka, o planeta de Brahmã, onde se manifesta o grau mais elevado de dilatação do tempo em relação à Terra. Em outros sistemas planetários, os intermediários, manifestam-se graus  intermediários de dilatação de tempo.”


Dilatação do Tempo nas lendas  da Europa: Irlanda, Escócia e Alemanha: trezentos anos em três anos.


Há um conceito de Dilatação de Tempo peculiar na  estória celta de Ossian.

A narrativa envolve uma princesa Sidhe (uma espécie de raça de fada/elfo que habita um mundo invisível para a maioria dos humanos, um mundo paralelo) que seduziu um humano, Ossian, a vir para o seu mundo Tir na nog ( “A Terra da Juventude”, um dos nomes dessa realidade paralela), onde ele se casou e viveu lá pelo o que pareceu ser três anos para ele. Finalmente porém ele sentiu um desejo irresistível de voltar para o mundo natal, a Irlanda. Partiu montado no mesmo cavalo mágico, com capacidade de viajar sob o mar, que o levara ao outro mundo, e a sua esposa fada preveniu-o de que não pusesse os pés em terra firme.
Ao chegar à Irlanda, ele soube da morte de todos os seus antigos companheiros e de todas as mudanças por que passara o país. Só então se deu conta do longo tempo que estivera afastado dali. Haviam se passado trezentos anos. Enquanto para Ossian, foram apenas três anos vivendo na realidade paralela de Tir na nog, na Terra haviam se passado trezentos anos.

Outra lenda irlandesa que envolve Dilatação de Tempo é a “Viagem de Bran”  ( Immram Brain- Maic Febail) do ano 700 depois de Cristo:

Em um certo dia enquanto Bran caminha, ouve uma música esplendorosa que o faz dormir. Ao acordar vê uma mulher do Outro Mundo (uma realidade paralela) que o convida para visitar esta outra dimensão, onde não há doença, sempre é verão, e não há falta de água e alimento. Bran reúne um grupo de marinheiros e decide cruzar o mar, seguindo as instruções da mulher fantástica.  No meio da viagem ele encontra o Deus do Mar celta Manannán, em uma carruagem sob o mar, que afirma que enquanto Bran pensa que está velejando sob o o oceano, para Manannán o lugar é um campo florido, sugerindo dimensões paralelas. Ele também releva que há muitas carruagens no local, mas que elas parecem invisíveis para Bran.
Ao continuar sua viagem o protagonista chega a uma terra mágica, a Terra das Mulheres e lá cada marinheiro enamora-se com uma fada assim como Bran com a líder delas. Eles permanecem lá por um ano até um dos marinheiros sentir muita saudade de casa. A líder das mulheres fica relutante em deixá-los ir e os avisa para não pisar em solo quando chegaram na Irlanda.
Bran e seus companheiros viajam de volta para a Irlanda. As pessoas ao ver o barco se aglomeram nas praias para o encontrá-lo, mas não reconhecem seu nome a não ser nas lendas locais. Para Bran apenas um ano tinha se passado no Outro Mundo, mas centenas de anos haviam se passado na Terra.
Um dos marinheiros pula do barco e pisa em terra firme. Imediatamente ele se torna cinzas.

As Órcades , um arquipélago localizado ao Norte da Escócia, possuem uma lenda que também lida com Dilatação de Tempo ligada ao Círculo de Brodgaré, uma misteriosa formação circular de pedras parecida com o Stonehenge. A lenda diz que um violinista bêbado estava voltando para casa quando ouviu música vindo de uma colina perto do local. Ele encontra um grupo de Trolls fazendo uma festa. Ele fica lá e toca por duas horas, então ao voltar para casa descobre que 50 anos se passaram.

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Outras lendas europeias como a Irlandesa “Viagem de Mael Duin” e a alemã “Herla” também lidam com o tema de Dilatação Temporal, onde mortais visitam uma dimensão paralela e lá ficam por alguns dias. Quando retornam a Terra, centenas de anos se passaram.


Dilatação de Tempo nos Mitos Chineses e Japoneses


Na China, o autor e erudito taoísta Tu Kuang-t´ing , que viveu 850 a 933 depois de Cristo,  escreveu um livro que descreve mundos paralelos, dez “paraísos subterrâneos” e 35 “pequenos paraísos subterrâneos”, que teriam existido debaixo das montanhas chinesas. Eis o relato das experiências vividas por um homem ao transpor uma passagem que levava a um destes paraísos subterrâneos:

“Após caminhar vinte quilômetros, ele se viu subitamente numa bela região ‘ com um límpido céu azul, brilhantes nuvens róseas, flores exuberantes, salgueiros enormes , torres da cor do cinabre, pavilhões de jade vermelho e amplos palácios’. Foi recebido por um grupo de mulheres amáveis e sedutoras, que o trouxeram para uma casa de jaspe e tocaram belas melodias enquanto ele tomava ‘uma bebida vermelha como o rubi e um suco cor de jade’. Tão logo sentiu o impulso de se deixar seduzir, lembrou-se de sua família e voltou para a passagem. Conduzido por uma luz estranha a dançar em sua frente, caminhou de volta, pela caverna até o mundo exterior; mas, chegando em casa, encontrou seus próprios descendentes de nove gerações posteriores à sua. Segundo lhe contaram, um de seus ancestrais desaparecera numa caverna trezentos anos antes e jamais fora visto de novo.”

Há uma outra lenda chinesa chamada Lan Ke ( “o cabo estragado do machado”) ou Ranka, datada de 300 anos depois de Cristo, que também mostra uma viagem a uma dimensão diferente e um efeito de dilatação do tempo. Diz a tradição que o acontecimento ocorreu em uma montanha considerada sagrada, que seria um dos lares dos Imortais da misticismo taoísta. Esta Montanha possui no topo uma formação natural de pedras na forma de uma ponte. Uma caverna localiza-se debaixo da ponte, e lá é onde a tradição diz que ocorreu o incidente. A lenda tem alguns detalhes diferentes nos diversos manuscritos que foi gravada, mas a essência é a mesma.

A estória  é sobre um viajante em um cavalo, portando um machado, que entra cada vez mais em uma floresta. De repente, ele vê dois idosos estranhos jogando Go ( uma espécie de xadrez chinês). Em outra versão ele encontra quatro jovens cantando uma música celestial. Estes seres, os dois idosos ou ou quatro jovens, oferecem um alimento místico ao viajante, que ao comer perde totalmente a fome e a sede. Após uma ou duas horas assistindo o espetáculo, ele decide retornar para o cavalo e encontra apenas o esqueleto deste.  Também percebe que o cabo do seu machado apodreceu. Ao retornar para casa descobre que décadas se passaram, sua família não existe mais e ninguém mais lembra do seu nome.

No Japão, há a famosa lenda de Urashima Tarō do ano 700 depois de Cristo. Ela mostra Dilatação de Tempo e é sobre um pescador que resgata uma tartaruga e é recompensado com uma visita ao palácio do Deus Dragão, que fica debaixo do oceano. Ele fica lá por três dias e quando retorna percebe que na Terra passaram-se trezentos anos. A lenda é tão influente que serviu de inspiração para  animes como Dragon Ball, Yuyu-Hakusho e Cowboy Bebop.  A força da estória é tamanha que há uma  capela milenar em Kyoto, construída pelo Imperador Junna, governante da época, em homenagem ao ocorrido.

A estória é a seguinte:

Um dia um jovem pescador chamado Urashima Taro estava pescando quando ele vê um grupo de crianças torturando uma pequena tartaruga. Taro a salva e a deixa retornar para o mar. No próximo dia, um tartaruga enorme se aproxima dele e conta que a pequena tartaruga que ele salvou é a filha do Imperador do Mar, Ryujin, que quer vê-lo e agradecê-lo. A tartaruga mágica dá guelras a Taro e o leva para o fundo do mar, para o Palácio do Deus Dragão. Lá ele se encontra com o Imperador e a pequena tartaruga, que na verdade é uma amável princesa chamada Otohime.   Taro permanece com Otohime por três dias, mas logo decide retornar para sua vila e ver a sua mãe idosa e pede permissão para partir. A princesa diz que lamenta vê-lo ir embora, mas deseja o melhor para Taro e lhe dá uma misteriosa caixa chamada Tamatebako na qual o irá proteger de qualquer mal, mas que ele nunca deve abri-la. Taro segura a caixa e monta em cima da mesma tartaruga que o trouxe para aquele mundo, e logo está de volta à beira da praia.

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Quando ele retorna para casa, tudo mudou. Sua casa se foi, sua mãe desapareceu e as pessoas que ele conhecia não são encontradas.  Ele pergunta se alguém conhece o nome Urashima Taro. Algumas pessoas respondem que ouviram falar de alguém com o mesmo nome que sumiu no mar há muito tempo atrás. Ele descobre que 300 anos se passaram desde o dia que ele partiu para o mundo paralelo do Palácio do Rei Dragão, no fundo do mar. Tomado pelo pesar, ele distraidamente abre a caixa que a princesa havia lhe dado. Uma fumaça branca surge e de repente ele envelhece, com uma barba branca, longa e branca e com corcunda nas costas. Advinda do mar, ele escutar a voz suave da princesa: ” eu lhe disse para não abrir a caixa. Nela estava a sua velhice”


Conclusão

O Conceito de “Dilatação do Tempo” de Einstein, mostrada no filme “Interstellar”  já era descrito  a 5.000 anos atrás nas escrituras da Índia Antiga ( os Vedas). As descrições destes textos mostram com rigor matemático as diferentes Dilatações de Tempo encontradas nos diferentes sistemas planetários da astronomia indiana.
Tal efeito também ocorre nos mitos europeus, particularmente os Celtas, assim como em mitos chineses e na lenda japonesa de Taro. Muitas vezes a viagem para estes outros planetas, dimensões e mundos paralelos não se dá por naves espaciais ( apesar que naves intergaláticas são descritas nos Vedas, são os chamados Vimanas) mas por uma espécie de Buracos de Minhoca ( wormholes) que transportam o viajante de uma dimensão para outra.

“Eu sou o tempo, destruidor dos mundos”

Bhagavad-Gita (11-32)

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Bibliografia

1-) Bhagavad Gita Como Ele É – Tradução e Comentários Srila Prabhupada – Editora BBT
2-) Srimad Bhagavatam – Autor: Vyasadeva, Tradução e Comentários de Srila Prabhupada – Editora BBT
3-) Identidades Alienígenas – Richard L. Thompson – Editora Nova Era
4-) Vedic Cosmography and Astronomy – Richard L. Thompson – Editora Motilal Banarsidass
5-) The Science of Interstellar – Autor: Kip Thorne – Editora W. W. Norton & Company

6-) God and Science – Autor: Richard L. Thompson – Editora Govardhan Hill
7-)https://en.wikipedia.org/wiki/Hindu_cosmology
8-)https://en.wikipedia.org/wiki/Hindu_units_of_time
9-)https://en.wikipedia.org/wiki/The_Voyage_of_Bran
10-)https://en.wikipedia.org/wiki/Urashima_Tar%C5%8D
11-) https://en.wikipedia.org/wiki/Ranka_%28legend%29

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O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 2

Gandalf

o mestre expõe seu poder e habilidade, dissipando a ilusão com o archote do conhecimento e destruindo a ignorância com a espada da sabedoria

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A primeira vista, apenas um velho de barbas grisalhas, encurvado pela idade e se apoiando em um longo cajado, Gandalf é muito mais do que se pode imaginar. Um mago repleto de sabedoria e dotado de um poder descomunal, é ele quem tira o pobre hobbit Bilbo de sua inércia e o lança em uma jornada inesperada.

Na vida espiritual, todos precisam da ajuda de um “Gandalf”, de alguém que conheça os mistérios das Terras Ermas e que possa revela-los. Ao se deparar com tal personalidade, que podemos chamar de guru ou mestre, a alma começa sua verdadeira aventura, ainda que não entenda bem o porquê disto.

Gandalf sempre possui muitos truques nas mangas e no começo da viagem a Erebor, ele é quem revela tanto o mapa para chegar na Montanha, quanto a chave para entrar nela. Da mesma forma, o mestre é aquele que conhece tanto a teoria, quanto a prática da espiritualidade, porque antes de ser um mestre, ele já foi um esmerado discípulo e pôs a prova tudo o que agora ensina, conhecendo muito bem os percalços e prazeres do caminho e podendo revelar qual trilha devemos seguir. Ele não delira em suas próprias especulações a respeito da Verdade, tentando fabricar uma suposta doutrina esotérica através de seus sentidos imperfeitos. Com humildade, ele reconhece sua pequenez diante do mundo, preferindo transmitir a prática sabedoria atemporal que já foi validada pelos transcendentalistas de várias gerações, ajustando sua implementação ao contexto cultural aonde está situado.

Ele também pode nos indicar aquilo que antes não percebíamos: nossas próprias fraquezas e imperfeições. E como conhece o coração de cada um de seus alunos, o mestre pode ajuda-los a pacientemente removerem estes defeitos de si, abrindo espaço para que o esplendoroso fulgor da centelha divina que habita em cada um brilhe desimpedidamente.

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O velho mago Gandalf é sempre muito sábio em suas palavras, conseguindo persuadir o hostil Beorn, o troca-peles, a receber Bilbo e os anões em sua casa e os mostrar qual caminho deveriam tomar para avançar pela Floresta das Trevas. Assim é o guru, que munido de sua grande experiência do funcionamento deste mundo pode mudar o coração dos homens, trazendo gentileza e humildade para aqueles que antes eram ariscos, presenteando com cautela e introspecção aqueles que eram precipitados e outorgando audácia e altivez para aqueles que eram irresolutos e sem confiança.

Gandalf caminha como um senhor idoso pela Terra-Média apenas para despertar mais facilmente a empatia de seus interlocutores, fazendo com que suas instruções sejam aceitas com menos orgulho. Apesar da sua aparência frágil, é nas Montanhas Sombrias que Gandalf revela toda sua glória e majestade, conjurando chamas e brandindo sua reluzente espada Glamdring para salvar seus protegidos dos temíveis orcs e wargs. Essa é uma importante lição: não devemos procurar o mestre espiritual em alguma figura estereotipada de um alienado homem de barbas longas e dreads ou de outra figura excêntrica vinda do Oriente. Normalmente ele se parece com um cidadão ordinário, mesmo porque nunca quer chamar atenção para si, sempre reservando os holofotes para o conhecimento que carrega consigo. Mas para salvar seu inexperiente discípulo das garras do engano, o mestre expõe seu poder e habilidade, dissipando sua ilusão com o archote do conhecimento e destruindo sua ignorância com a espada da sabedoria.

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Gandalf não apenas protege Bilbo, como também lhe põe em situações que o forçam a trazer à tona o valoroso herói que existe dentro dele e é assim que o verdadeiro mestre age. O guru não está interessado em entreter seu discípulo com algum tipo de espetáculo pirotécnico ou pretensa exibição de poderes místicos, tampouco quer angariar sua atenção em troca de algum tipo de consolo emocional barato. O mestre é aquele que viu a Verdade e que portanto pode orientar outros a como terem experiência direta dela. Desta forma, ele não torna o seu discípulo dependente da sua presença pessoal, senão que insufla em seu coração a pura essência de seus ensinamentos, para que o aluno maduro possa aprender a discernir por conta própria. E assim o mestre vai forjando a verdadeira personalidade espiritual do discípulo, ajudando-o a se tornar cada vez mais forte e deixando-o sempre um passo mais próximo do grande tesouro que lhe aguarda.


Gollum

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Em uma ilha rochosa no meio de um lago subterrâneo nas profundezas das Montanhas Sombrias habita a pequena e viscosa criatura capciosa chamada Gollum. Incapaz de se adaptar a um ambiente límpido e arejado, esse ser vive rastejando por locais pútridos e sufocantes. Apesar do aspecto asqueroso, Gollum na verdade é um hobbit como Bilbo, mas que teve o infortúnio de ser corrompido pelo apego que possui ao seu anel mágico. Similarmente, a alma, quando se torna refém de desejos egoístas, apesar de seu esplendor original acaba por ficar condicionada a uma falsa personalidade tomada pelo orgulho e pela arrogância.

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É notável que Gollum não consegue apreciar uma saudável e suculenta refeição, com vegetais cozidos e boas frutas frescas, preferindo antes se alimentar da carne em decomposição dos peixes e goblins que consegue estrangular. A alma iludida também não anseia por qualidades nobres, como simplicidade, veracidade e pacificidade, sendo impelida a se alimentar de sentimentos que fomentam cada vez mais o seu egocentrismo.

Vivendo na completa escuridão por décadas, os olhos de Gollum se adaptaram as trevas e se tornaram como duas luzes pálidas e doentias entre as sombras, sendo incomodados pela luz do sol ou mesmo de tochas. E a alma que está ofuscada pelo materialismo também perde sua sensibilidade para admirar as virtudes alheias, se tornando perita em observar os defeitos daqueles que a cercam; não para ajuda-los a corrigi-los, senão que para criticá-los ou explorar lhes as fraquezas. Ao se absorver nessa contemplação, a pobre alma vai perdendo cada vez mais seu senso de compaixão e sua gentileza e modéstia naturais.

Ao perceber a presença de Bilbo, Gollum se sente tentado a lhe devorar, mas ao se dar conta que ele levava consigo o punhal élfico Ferroada, o pequeno ser asqueroso se vê forçado a tentar uma abordagem mais sútil e lhe propõe um jogo de adivinhas, no qual tenta derrota-lo para que possa em seguida mata-lo. Da mesma forma, a alucinação causada pelo apego a matéria não consegue atacar a poderosa alma diretamente; por isso, vai ardilosa e sorrateiramente lhe sugerindo todo tipo de propostas descabidas, fazendo com que ela lenta e imperceptivelmente perca sua magnanimidade original.

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Mas quando o esperto Bilbo consegue ganhar de Gollum nas adivinhas, ele afortunadamente põe o seu recém adquirido anel mágico e descobre que este poderia torna-lo invisível. Assim, sem poder ser visto por Gollum e de posse de sua adaga, ele poderia acabar de uma vez com o vilão, mas por misericórdia não o faz. Ainda bem, pois Gollum muitos anos depois acabaria sendo uma ferramenta fundamental nas mãos do destino para a derrota definitiva do Senhor das Trevas.

E a alma que está se esforçando no caminho da perfeição espiritual também não odeia, nem inveja seus irmãos menos evoluídos, por mais presunçosos e ríspidos que pareçam ser. Ela se mantém vigilante, para que não seja afetada pelas atitudes inconsequentes destas almas iludidas, mas ao mesmo tempo sabe que o ser de cada entidade viva neste mundo, independente do corpo no qual esteja habitando, é da mesma qualidade que si própria e é igualmente uma parcela da energia de Deus, possuindo um importante papel a desempenhar nos planos divinos.

Continua…

Leia a Parte 1 e 2 em  https://nerdomline.wordpress.com/115-2/

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A LOUCURA DE “MAD MAX” SERÁ O NOSSO FUTURO?

O mundo pós apocalíptico de Mad Max pode se tornar realidade, e mais: ele teria sido profetizado pelas escrituras da Índia Antiga ( os Vedas), da Grécia e de Roma.

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O Apocalipse total! Nas palavras de Mad Max, um “mundo de fogo e sangue”. O resultado é hecatombe nuclear e catástrofe ambiental, que acarreta o genocídio de milhões, destruindo sociedades inteiras e tornando insalubre o próprio planeta Terra. Um mundo com escassez de água, desprovido de flores, frutas e plantas, dominado por gangues sanguinárias lideradas por tiranos saqueadores, um lugar sem espaço para compaixão e para a misericórdia onde apenas os embrutecidos e os animalescos sobrevivem através da crueldade e da exploração. A loucura alucinada é o comportamento aceitável, a violência é a norma, a barbárie impera; um mundo de ruínas.

Esse é um breve resumo do que o espectador encontrará na franquia de filmes Mad Max e no mais recente lançamento “ A Estrada da Fúria”. Com o comprovado sucesso de crítica e bilheteria dos filmes distópicos e pós-apocalípticos (a própria franquia Mad Max, o filme A Estrada, O Livro de Eli etc) parece que há algo que atrai nossas mentes, como uma intuição, em filmes que retratam o futuro como um lugar desolado, composto de sociedades destruídas, com protagonistas tentando manter a pouca humanidade que resta em um ambiente de saques e destruição desenfreada, onde mulheres e crianças são presas fáceis e fanáticos pseudorreligiosos usam a crença não para expandir a consciência das massas, mas para aprisioná-las. Este tema reverbera em outros gêneros, como por exemplo na série sobre zumbis “The Walking Dead” e no mangá cult “Hokuto No Ken”.

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Um futuro a lá “Mad Max” não faz parte apenas do imaginário mitológico de Hollywood. Profecias da Grécia, Roma e da Índia antiga dizem algo surpreendentemente similar sobre o que nos aguarda no futuro. O mito da chamada “Era de Ferro”- uma época futura, decorrente do presente, em que a humanidade entrará em colapso – faz parte das narrativas indianas, gregas, romanas, viking, ameríndias, ou seja, de boa parte do nosso imaginário coletivo. A seguir, vamos expor e comparar a visão futurista de Mad Max com os mitos dos gregos e romanos da antiguidade e das escrituras da Índia Antiga ( Os Vedas).


O Apocalipse de Mad Max: Esperança e Redenção

No início do segundo filme da franquia, “Mad Max: O Guerreiro da Estrada” temos a narração do seguinte prólogo:

“É uma época caótica de sonhos arrasados de uma terra devastada. O mundo era controlado pelo combustível negro; no deserto haviam grandes cidades de tubos e aço, cidades que sumiram arrasadas por razões há muito esquecidas. Duas grandes poderosas nações entraram em guerra e lançaram uma chama que consumiu a todos, sem combustível elas não eram nada, construíram um mundo frágil. As máquinas engasgaram e pararam, seus líderes debateram, debateram e debateram, mas nada podia deter a avalanche. O mundo desabou. Cidades explodiram, o mundo inteirou virou uma pilhagem, uma tempestade de fogo e medo. Homens começaram a se alimentar de homens, nas estradas havia uma linha branca de pesadelos. Só os brutos sobreviviam, gangues tomavam contas das estradas, prontas para guerrear por um tanque de combustível. Nesse turbilhão de decadência, homens comuns eram castigados e esmagados”

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Enquanto o primeiro filme da tetralogia mostra uma atmosfera futurista semi urbana fragmentada, com uma ordem social confusa e caótica – com agentes da lei tão lunáticos quanto os fora da lei, com gangues de criminosos sádicos espalhando o terror em cidades semidesertas e vilarejos – os outros três filmes mostram um ambiente ainda mais inóspito: neles é como se o mundo tivesse virado um grande deserto, com doidos psicóticos e tiranos sanguinolentos – sempre vestindo uma moda punk – dirigindo carros que parecem ter saído do videogame “Carmagedon”; Um verdadeiro cirque-du-soleil de horror surrealista.

Há muitos elementos na série que permitem identificar qual é o futuro concebido pelo diretor George Miller. O deserto é uma imagem tanto literal quanto metafórica, um lugar onde a humanidade entrou não só em colapso no âmbito material ( com escassez dos recursos mais básicos como fontes de energia, água, cultura, educação, interações sociais saudáveis etc), mas também espiritual. No mundo de Mad Max (assim como em outras obras distópicas) a espiritualidade praticamente inexiste. Pode haver até um certo tipo de “religião” como mostrado no recente “A Estrada da Fúria”, mas esta é construída artificialmente por déspotas inescrupulosos com o intuito de manter as massas iludidas e fanáticas, tornando as mais maleáveis à manipulação e aos seus interesses egoístas ( oposto do que prega qualquer linha espiritual autêntica).

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Ademais, de um modo geral, inexiste amizade, lealdade, amor e justiça. Os heróis dos filmes são aqueles que lutam para manter o mínimo dessas qualidades ou para revivê-las. Os heróis são aqueles que se recusam a perder a esperança em um ambiente inóspito, e que buscam a redenção protegendo mulheres, crianças, deficientes físicos e idosos – elementos que necessitam de resguardo em culturas civilizadas – para evitar que eles se tornem presas nas mãos de brutamontes lunáticos. Não por acaso, em todos os últimos três filmes da franquia, o clímax final é constituído de uma fuga em um grande veículo (caminhão ou trem) liderada pelo herói e protagonista Max com o intuito de proteger crianças, mulheres e deficientes físicos das hordas de homens insanos e sanguinários em automóveis mortíferos, verdadeiros pesadelos metálicos em quadro rodas.

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O simbolismo desta cena clímax de perseguição e fuga é crucial. São pessoas tentando proteger a qualquer custo a pouca humanidade que ainda resta no mundo, das garras de tiranos sádicos e amorais de um sistema louco em si mesmo. Esta humanidade simbólica, que necessita ser protegida e sobreviver, é construida através cooperação mútua e mesmo os elementos tidos como os mais vulneráveis da sociedade ( mulheres, crianças, idosos e deficientes físicos) possuem papel ativo na luta. É o embate do que resta da civilização contra a loucura desenfreada. O fato de Max liderar a fuga do caminhão na cena final também é significativo. É o momento dele, como protagonista, buscar a sua redenção e de reacender a esperança, fragilizada pelas memórias amargas do passado. O sucesso não será mais para apenas garantir a sobrevivência de Max, mas para dar um futuro para os indivíduos que ele protege.

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Mad Max segundo o conhecimento da Índia Antiga

O mundo pós-catástrofe de Mad Max tem grande semelhanças com as profecias do mundo antigo. Por exemplo, as escrituras filosóficas e religiosas da Índia Antiga, os Vedas (escritos há 5.000 anos atrás), profetizam que o futuro do planeta Terra se assemelhará com tais filmes apocalípticos. O autor destas escrituras é um avatar ( esta palavra em sânscrito significa “Enviado dos Céus”) chamado de Vyasadeva, um escritor santo e poeta místico que viveu há 3.000 anos antes de Cristo, responsável pela compilação de todos os Vedas conhecidos. Na escritura milenar védica chamada Srimad-Bhagavatam, se descreve que atualmente vivemos na última etapa de um ciclo de quatro eras ( a Terra seria regida por um ciclo de quatro eras cósmicas assim como o ano é regido por um ciclo de quatro estações), a chamada Kali-Yuga ( “a era do vício, era das desavenças” segundo a tradução do sânscrito), uma era de grande turbulência social e insanidade coletiva. De acordo com esta escritura, esta era em que vivemos iniciou-se há 5.000 anos atrás (quando os Vedas foram escritos) e durará ao todo 432.000 anos ( assim como os Maias, os indianos estão entre os povos antigos a ter uma percepção temporal com números colossais, com escalas de tempo, calendários e ciclos cósmicos que chegam a trilhões de anos). Ou seja, com apenas 5.000 anos corridos do total de 432.000 anos de Kali-Yuga, estaríamos apenas nos estágios inicias. Segundo as profecias dos Vedas a humanidade teria à frente mais 327.000 anos de crescente deterioração mental, social, ambiental etc. Em alguns versos do livro sacro Srimad-Bhagavatam afirma-se algumas das características e previsões da Kali-Yuga, a era em que as escrituras afirmam que vivemos:

“Em Kali-yuga, só a riqueza será considerada sinal de bom nascimento, comportamento adequado e boas qualidades. E a lei e a justiça serão aplicadas apenas com base no poder do indivíduo. Homens e mulheres viverão juntos por causa da mera atração superficial. O sucesso nos negócios dependerá de fraudes. A feminilidade e a masculinidade serão julgados segundo a perícia sexual da pessoa. A posição espiritual da pessoa será determinada apenas por símbolos externos. A dignidade do homem será seriamente questionada se ele não tiver um bom salário. E considerar-se-á um intelectual erudito quem for muito esperto em malabarismo verbal. A hipocrisia será aceita como virtude. Será considerado sagrado um lugar que tiver apenas um reservatório de água num local distante, e a beleza será julgada pelo penteado da pessoa. Encher a barriga se tornará a meta da vida, e quem for audacioso será aceito como veraz. Quem conseguir manter a família será considerado hábil, e os princípios religiosos serão observados somente por causa da reputação. A medida que a Terra se apinhar de população corrupta, quem quer que, dentre qualquer das classes sociais, mostrar ser o mais forte, obterá o poder político. Perdendo suas esposas e propriedades para tais governantes avarentos e desumanos, que não se comportarão melhor do que ladrões ordinários, os cidadãos fugirão para as montanhas e florestas. atormentadas pela fome e atingidas pela seca, elas ficarão completamente arruinadas. Os cidadãos sofrerão muito com o frio, vento, calor, chuva e neve. Serão atormentados ainda por desavenças, fome, sede, doença e severa ansiedade. A duração máxima da vida dos seres humanos em Kali-yuga será de cinquenta anos. A maioria dos governantes serão ladrões, a ocupação dos homens será o roubo, a mentira e a violência desnecessária. Os laços familiares não se estenderão além dos vínculos imediatos do matrimônio, os lares serão desprovidos de piedade, e todos os seres humanos parecerão asnos. Na era de Kali, as pessoas tendem a ser gananciosas, mal comportadas e desumanas, e brigam uns com os outros sem nenhuma boa razão. O povo de Kali-yuga é desafortunado e assediado por desejos materiais, e quase todo composto por bárbaros. Quando há predominância do engano, mentira, preguiça, sonolência, violência, depressão, lamentação, confusão, medo e pobreza, essa é a era de Kali, a era do modo da ignorância. Em decorrência das más qualidades da era de Kali, os seres humanos terão visão curta e serão desafortunados, glutões, luxuriosos e empobrecidos. As mulheres, deixarão de ser castas, vagarão à vontade de um homem para outro. As cidades serão dominadas por ladrões. Os líderes políticos chegarão quase a consumir os cidadãos, e os ditos sacerdotes e intelectuais se entregarão aos ditames do estômago e órgãos genitais. Os pais de família virarão mendigos e os negociantes se ocuparão num pequeno comércio e ganharão dinheiro através de fraude. Mesmo sem haver emergência, as pessoas considerarão bastante aceitável qualquer ocupação degradada. Os servos abandonarão um senhor que tenha perdido a sua riqueza, mesmo se esse senhor for uma pessoa santa de caráter exemplar. Os patrões abandonarão um servo incapacitado, mesmo que esse servo tenha estado na família por gerações. As vacas serão abandonadas ou mortas quando deixarem de dar leite. Em Kali-yuga os homens serão desprezíveis, rejeitarão seus pais, irmãos, outros parentes e amigos. Dessa maneira, seu conceito de amizade será baseado exclusivamente em vínculos sexuais. Homens que nada sabem de religião subirão no trono do mestre e se atreverão a falar de princípios religiosos. Na era de Kali, a mente das pessoas estará sempre agitada. Elas ficarão magras em virtude da fome e dos impostos, meu querido rei, e estarão sempre perturbadas devido ao medo da seca. Terão falta de roupas, comida e bebida adequadas, serão incapazes de ter descanso apropriado ou de se banhar. De fato, as pessoas em Kali-yuga aos poucos ficarão semelhantes a criaturas assombradas ou fantasmas. Em Kali-yuga os homens desenvolverão ódio mútuo até por causa de algumas moedas. Abandonando todas as relações amistosas, estarão prontos a entregar a própria vida e a matar até mesmo os próprios parentes. As pessoas não protegerão mais seus pais idosos, filhos ou esposas respeitáveis. Totalmente degradados, só cuidarão de satisfazer o próprio estômago e órgãos genitais. (Srimad-Bhagavatam , Canto 12, capítulos 2 e 3)

Mad Max de acordo com as profecias da Grécia Antiga.

Para os gregos do período clássico (750 anos antes de Cristo), dois poetas eram referência no que tange aos mitos da Grécia: Homero e Hesíodo. O primeiro foi o responsável pela Ilíada e Odisséia, as epopéias definitivas da Hélade. O segundo compôs duas obras seminais: A Teogonia e Os Trabalhos e Os Dias. Esta, possui uma explicação sobre um ciclo de eras cósmicas pelo qual a Terra atravessa: Ouro, Prata, Bronze, Heróica e Ferro. Hesíodo afirma nos versos de Os Trabalhos e Os Dias (Erga kai Hēmerai – em grego) que vivemos a “Era de Ferro” e que ela tende a piorar conforme os anos passam.

Segue abaixo, os versos traduzidos do grego sobre a Era de Ferro:

“Antes não estivesse eu entre os homens da quinta era, mais cedo tivesse morrido ou nascido depois. Pois agora é a era de Ferro e nunca durante o dia cessarão de labutar e penar durante o dia e nem à noite de se destruir; e árduas angústias os deuses lhes darão. Ainda sim para eles, bens estarão mesclados aos males. Mas Zeus destruirá esta raça de homens assim que eles nascerem com os cabelos brancos. Nem pai a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a hospedeiro ou camarada a companheiro, e nem irmão a irmão caro será, como já havia sido; vão desonrar os pais tão logo eles envelheçam e vão censurá-los, com duras palavras, insultando-os; cruéis, sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder retribuir aos velhos pais os alimentos; é a força do braço, um do outro a cidade saqueará. Não terá alegria o que jura certo, nem o justo nem o bom, mas ao que é perverso e desmedido o povo estimará. É a lei do mais forte e pudor não haverá; o covarde ao mais honesto lesará com tortas palavras falando e sobre elas jurará. Inveja perseguirá aos homens – desgraçados, todos – horripilante- alegra-se com a dor alheia- maliciosa. Então ao Olimpo, da Terra de amplos caminhos, com os belos corpos envoltos em alvos céus, à tribo dos imortais irão,  Pudor e Partilha, abandonando os homens. Só restarão tristes pesares aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!”
Os Trabalhos e os Dias (Versos 173-201).

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“Inveja maliciosa perseguirá aos homens – desgraçados, todos – horripilante, alegra-sem com a dor alheia ” Os Trabalhos e os Dias


Mad Max segundo as profecias da Roma Antiga.

Ovídio nasceu no Império Romano no ano de 42 antes de Cristo. Sua poesia se tornou influente em todo o mundo ocidental posterior e seu livro “Metamorfoses” é uma das mais importantes fontes de mitologia clássica. Neste livro Ovídio narra um ciclo de quatro eras para a terra: Ouro, Prata, Bronze e Ferro. Eis como ele descreve a Era de Ferro:

“Eis a última era: a de Ferro. Todo o horror, todo o mal rebentam nela. Súbito fogem fé, pudor, verdade. Ocupam lhe o lugar mentira, astúcia, a insultuosa força, a vil deslealdade, e a cobiça possessiva… e em terra antes comum a todos, qual luz do sol e o ar, surge fronteiras artificiais. Nem só colheita e grãos vindos da rica Terra exigiam; porém adentraram-lhe as vísceras, e os bens que ela escondera na sombra do Estige foram desenterrados, provocando males. E já o ferro nocivo, e o ouro bem pior, surgira: e surge a guerra em que cada um brande em mão ensanguentada as armas crepitantes. Vive-se da rapina, o sogro teme o genro; o hóspede, o anfitrião; rara a paz entre irmãos. Os cônjuges desejam a morte um do outro; madrastas más fabricam venenos terríveis; o filho anseia o fim prematuro dos pais. Jaz vencida a virtude, e a virginal Astréia, a última da divindades celestiais, por fim, deixou esta terra banhada de mortes ” Metamorfoses ( Livro 1 / versos 124-156)

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Nem só colheita e grãos vindos da rica Terra exigiam; porém adentraram-lhe as vísceras, e os bens que ela escondera na sombra do Estige foram desenterrados, provocando males” – Metamorfoses


Conclusão
Apocalipse e Mad Max. É possível manter a humanidade perante tanta desgraça?

Um tema permeia todas estas profecias de apocalipse e o filme Mad Max: a degeneração das qualidades que nos tornam humanos. Perdendo as qualidades que nos distinguem dos animais ( como compaixão, distinguir o certo do errado, retidão, senso de dever com próximo etc), perdemos a nossa humanidade. Precisamente esta é a linha que nos separa da barbárie.

O mundo de Mad Max apresenta antagonistas que não ligam mais em reter estas qualidades e que se deixam bestializar em um mundo de brutos, regido pelo egoísmo. E apesar de Max ser retratado como um agente mortal em nome da vingança no primeiro filme, nos outros subsequentes Max é um herói relutante e vacilante, mas que no fundo tem um bom coração. Nas palavras do diretor George Miller:

“ O Filme ‘Mad Max: A Estrada da Fúria’ começa com um mundo pessimista e termina com a possibilidade de um renascimento, não importa o quanto a situação seja ruim. Max passa a maior parte do filme tentando negar a sua humanidade. Mel Gibson chamou o personagem de ‘humano dentro do armário’, já que Max não quer se envolver com outros seres humanos porque ele acredita que qualquer investimento emocional será muito doloroso e que comprometerá as suas chances de sobrevivência. Ele mal consegue expressar o seu sentimento pelo seu próprio cachorro…mas há uma qualidade de ‘bondade’ no personagem, um ‘coração bom’, então você sabe que há potencial em Max, você entende que ele está pronto para reacender a chama de compaixão dentro dele. Um ótimo exemplo disto é a relação dele com o menino selvagem. No final do filme, Max compreende – talvez inconscientemente- que ele não pode viver completamente sozinho, e que a sua vida deve ter um propósito maior. Desse modo, ele entende que não tem outra escolha a não ser dirigir o caminho tanque para as pessoas que serão atacadas pelos lunáticos. Max começa a acreditar, como cada um de nós, que ele é parte de um coletivo, goste ou não.”

Neste contexto os vilões são aqueles que optaram ser levados pela maré em um mundo caótico, hipócrita e sanguinário, apenas se preocupando com prazeres ou comodidades materiais em prejuízo do próximo. O diretor George Miller explica um pouco mais:

Eu acho que os vilões do filme são aqueles que optaram por pensar ‘não há esperança, não há alternativa para um renascimento, nosso meta é apenas sobreviver tomando das outras pessoas o que restou’”

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Neste ponto , Mad Max espelha a ideologia por trás de todas as profecias védicas, gregas e romanas listadas anteriormente.

De acordo com as notas da tradução de Os Trabalhos e Os Dias de Luiz O. Mantovaneli:“o homem que vive de forma justa assemelha-se aos deuses e está próximo de sua origem, enquanto aquele que nega a justiça aproxima-se das bestas”

Mêncio, um dos maiores filósofos da China antiga também diz:

pequena é a diferença entre a humanidade e a barbaridade. O homem comum perde essa característica, o homem exemplar a conserva em seu coração” Mencius
(IV. B. 19)

Ao se recusar a ser unicamente controlado pelo medo, cobiça, inveja, violência e loucura, Max, mesmo que inicialmente relutante, acaba optando desenvolver as sementes da virtude de seu coração. É isto que o separa dos vilões do filme. Max poderia ser um deles devido as circunstâncias, mas por fim decide tomar um outro caminho. E esta escolha , nos últimos três filmes, o leva a um estado mental de felicidade. Materialmente Max não recebeu nada ( até perdeu), mas espiritualmente ele se sente realizado. Assim, os filmes encerram-se em um final feliz, com o protagonista recobrando a sua humanidade e se tornando um herói quase mítico para aqueles que ele ajudou.
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Nesta jornada Max conta com aliados, amigos, que o ajudam a recobrar esta humanidade e a cultivar esperança em seu coração endurecido.

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As escrituras Védicas e Gregas também prenunciam um final feliz, apesar de afirmarem que vivemos em uma era degradada que durará muitos e muitos anos. No caso do poeta grego Hesíodo, está implícito que após esta turbulenta época do homem da era de ferro, uma era dourada surgirá novamente ( assim como o mito da “Era de Ferro”, o mito da “Era de Ouro” também faz parte das narrativas de diferentes culturas) fazendo com que a paz, a espiritualidade e a harmonia reinem mais uma vez entre os homens. No caso dos Vedas, as profecias fornecem números mais exatos ( a Índia Antiga é conhecida pela alto grau de sofisticação matemático, o número zero por exemplo foi invenção dessa cultura) e também citam um intervalo na Kali-Yuga em que as virtude divinas estarão presentes de novo na humanidade, seria a era de ouro do avatar Chaitanya Mahaprabhu, mesmo dentro desta era sombria.

Os momentos e situações intensas que os habitantes deste atual mundo estão passando servem como um teste para avaliar a sinceridade do coração de cada um, pois vimos que o mundo apocalíptico de Mad Max ainda deixa espaço para que as pessoas de boa vontade continuem a sua jornada. Esperança também é uma imagem forte em toda a cultura mundial,e este conceito tem força em Mad Max. Mesmo em um mundo selvagem, ainda existe a possibilidade de desenvolver as sementes das virtudes no coração. Em um sentido, o ambiente catastrófico serviria como catalisador para estas mudanças internas radicais. A reencarnação é própria do pensamento dos Vedas ( e do pensamento platônico/pitagórico ), desta forma a jornada do protagonista da nossa própria história, no caso nós mesmos- a nossa consciência, ou alma- , continuaria por muitas e muitas vidas, como se fossem continuações dos filmes de Mad Max, como se fossem reboots: A mesma essência de personagem só que em corpos diferentes.

A mensagem final de Mad Max, Os Vedas e as escrituras grego-romanas é que a redenção e a prática da virtude sempre são possíveis, mesmo nos mais sombrios dos mundos pós-apocalípticos.

Uma coisa que me ajudou a colocar tudo de forma mais clara é a noção de que filmes são verdadeiramente sonhos coletivos. E assim como sonhos tem funções, os pesadelos nos ajudam a confrontar os nossos lados sombrios.” – George Miller , diretor de Mad Max.

“Aonde devemos ir, nós que peregrinamos por este deserto, em busca do melhor de nós mesmos?” Mad Max: A Estrada da Fúria

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Bibliografia

1-) Bhagavad-Gita Como Ele é – Tradução e comentários de: Srila Prabhupada – Editora BBT
2-) Srimad-Bhagavatam de Vyasadeva – Tradução e comentários de: Srila Prabhupada – Editora BBT
3-) Os Trabalhos e Os Dias de Hesíodo – Tradução e comentários de: Mary de Camargo Neves Lafer – Editora: Iluminuras
4-) Os Trabalhos e Os Dias de Hesíodo – Tradução e comentários de: Luiz Otávio Mantovaneli – Editora: Odysseus
5-) Metamorfoses de Ovídio – Tradução: Raimundo Nonato
http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidio-raimundocarvalho.pdf
6-)Metamorfoses de Ovídio – Tradução: Bocage – Editora Hedra
7-) Mencius – Tradução e comentário: D.C. Lau – Editora Pinguin Books
8 -) A Jornada do Escritor – Christopher Vogler – Editora Aleph
9 – ) https://thefilmist.wordpress.com/2009/09/19/danny-peary-on-mad-max-2the-road-warrior/
10-) http://www.maicar.com/GML/AgesOfWorld
11- Save The Day – A. David Lewis

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O Hobbit sob a visão de um monge: A Jornada Inesperada (da Alma) – Parte 1

A Canção de Ilúvatar

No último dezembro chegou aos cinemas de todo o mundo o último filme da Hexalogia do Anel, “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos”, trazendo consigo o triste gosto da despedida da Terra-Média nas telonas. Por ser uma adaptação (e põe adaptação nisso!) do livro, a nova trilogia fez muitos fãs torcerem o nariz, mas não se pode duvidar do seu impacto sobre um novo público, aumentando consideravelmente a procura pelo trabalho original do Professor Tolkien.

Especialmente avesso a alegorias, Tolkien nunca se valeu de nenhuma delas para criar sua Terra-Média. O Professor via esse recurso como uma desonestidade intelectual e achava que alegorias matariam os diferentes níveis de sentido possíveis para um texto e pensava que se por um lado, o autor seria inevitavelmente influenciado por suas vivências no momento da criação (visto que sua fé católica e participação traumática na Batalha de Somme, na 1ª Guerra, foram decisivas na confecção de sua própria obra), por outro o leitor teria o direito de apreciar a história a partir da sua própria experiência e percepção.

tolkien( Tolkien: o autor do mundo de O Hobbit e O Senhor dos Anéis)

Desta forma, muitos de seus fãs se emocionaram e se comoveram de formas distintas com as aventuras de Frodo, Aragorn e cia., tirando suas próprias aplicações pessoais dos princípios que permeiam o legendarium tolkieniano. Um caso famoso é o do mestre da ficção científica, Isaac Asimov, que escreveu artigos estabelecendo analogias entre o Um Anel e o uso da tecnologia.

Sendo impossível escapar da influência daqueles temas que são particularmente queridos pelo nosso próprio coração, confesso que ao vagar por Arda percebo muitos ecos de um texto muito antigo, mas que assim como os de Tolkien só se popularizou mundialmente bem recentemente. Trata-se da Bhagavad-gita, texto seminal da filosofia védica, que resume todos os princípios contidos por trás da prática da yoga. O seu nome pode ser traduzido como a “Canção de Deus” e ele trata da ontologia da alma, sua distinção do corpo material e o processo pelo qual ela pode se conectar a Consciência Suprema.

o-bhagavad-gita-como-ele-e( O Bhagavad-Gita Como Ele É, a tradução mais influente do clássico milenar no ocidente)

Mesmo sendo uma escritura milenar e tendo influenciado diferentes pensadores, como Einstein e Gandhi, a Gita só atingiu plena fama fora da Índia com a publicação da edição conhecida como “Bhagavad-gita Como Ele É”, em 1968. Esta edição contava com o texto original na língua sânscrita, tradução e comentários do maior erudito no tema do século XX, Srila Prabhupada, e foi amplamente apreciada tanto pelos jovens membros do movimento de contra-cultura, como por artistas do quilate de George Harisson e Allen Ginsberg e por acadêmicos, como Thomas Merthon.

Tentarei a seguir fazer algumas pequenas analogias entre os conceitos apresentados na Gita e alguns trechos de “O Hobbit”.

Bilbo

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Bilbo Bolseiro é um pacato e solteiro hobbit, que vive confortavelmente em sua amena toca, desfrutando de boas refeições e da comodidade de um belo cenário bucólico até que é surpreendido pelo mago Gandalf e por uma companhia de treze anões e é posto subitamente em uma aventura que poucos heróis topariam encarar: ir até a perigosa Erebor, a Montanha Solitária, guardada pelo último dos dragões para recuperar o tesouro dos anões.

Os anões já possuíam suficiente força bruta, então um ladino parecia ser uma aquisição considerável para o grupo e como os hobbits possuem uma pequena estatura e são silenciosos e furtivos quando necessário, um deles pareceu ser uma boa escolha. No entanto, avesso a qualquer atividade que interrompa sua rotina tranquila, Bilbo se mostra extremamente contrariado a entrar neste mundo que aparentemente não lhe pertence e para o qual não tem nenhuma aptidão, mas mesmo contra o seu desejo é posto na estrada com os anões e juntos passam por muitos desafios, conhecendo o reino de Rivendell, fugindo das Montanhas Sombrias, escapando da Floresta das Trevas…

E para sua própria surpresa, quando menos espera, Bilbo acaba por se tornar o ladrão que todos esperavam que ele fosse. É dessa forma que ele engana um bando de trolls, derrota aranhas gigantes, ludibria mesmo alguns elfos e esquiva-se do traiçoeiro Gollum. Bilbo chega a encarar o próprio dragão e sobrevive. Por fim, acaba por ser premiado com uma parte do tesouro que havia na montanha.

Da mesma forma que Bilbo, a alma, habitando um corpo com o qual falsamente se identifica, habitua-se com uma monótona e repetitiva existência, sem nem imaginar as aventuras que lhe esperam.

Apesar da própria alma ser eterna, plena de conhecimento e bem-aventurada e da natureza deste corpo efêmero e temporário nada ter a ver consigo, ela acaba por criar vínculos com ele e viver em função de sua manutenção, sem aprender qual é seu verdadeiro propósito. Assim, sem se questionar ela passa seus dias trabalhando para que consiga ter uma casa, uma posição respeitável na sociedade, um emprego estável, entre tantas outras metas que lhe são impostas, mas que na realidade só dizem respeito ao seu corpo. Ignorando suas verdadeiras necessidades, ela artificialmente tenta obter tudo isto, mas nada disso pode preencher suas lacunas e lhe dar verdadeira satisfação. Logo, sem se dar conta a alma fica engessada dentro dos limites da matéria e adormece… Até que depois de muito tempo, ela finalmente se depara com algo que desperta sua espiritualidade e então vê sua antiga vida indo embora e dando lugar a uma nova e excitante jornada.

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No começo, é claro, ela se sente desconfortável diante da nova situação, pois não é fácil ter que abandonar tantos conceitos já estabelecidos e se precipitar aonde poucos ousaram ir, mas aos poucos a emoção das pequenas vitórias sobre si mesma e a empolgação das descobertas a respeito do seu próprio eu, da vida que a cerca e da presença constante de Deus em cada situação vão lhe dando confiança para prosseguir.

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De fato, a alma é realmente surpreendente e inconcebível, pois é tão diminuta que não pode ser percebida empiricamente, nem através do mais sofisticado microscópio, mas é justamente ela que dá dinâmica ao corpo, que sem a sua presença não passa de um amontoado de matéria inerte e inconsciente. Esta mesma alma é indissolúvel e imutável, não podendo portanto ser destruída junto com o corpo. E ao se dar conta de sua verdadeira natureza espiritual, a alma já não se sente mais inclinada a frustração, senão que se enche de júbilo e vigor para continuar sua missão.

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Obstáculos aparentemente intransponíveis surgem neste caminho, muitos deles mais assustadores do que um exército de orcs. Isso também aconteceu com Bilbo, mas a providência lhe sorriu na forma das Grandes Águias, que resgataram os heróis de um grupo de inimigos, conduzindo-os em segurança até o Rio Anduin, e que apareceram como o maior reforço possível na Batalha dos Cinco Exércitos. Da mesma forma, quando parece encurralada diante de um desafio sobre o qual não tem capacidade de vencer, a alma também pode contar com o valioso toque da mão divina, que muitas vezes se manifesta sobre a forma de inspirações no interior do seu coração, fornecendo-lhe um novo ânimo e uma inovadora percepção da realidade, ou como uma repentina mudança nas situações externas, removendo a alma aventureira de situações perigosas.

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Ao longo de toda a história, Bilbo vai descobrindo em si um poder que desconhecia e se torna uma peça importante para a salvação de todo o mundo, apesar de seu tamanho pequenino e de sua inexperiência. Ao retornar para o seu querido Bolsão, ele já não é mais o mesmo: as lembranças que guarda consigo o tornam diferente dos demais hobbits. Ele já não pode mais se conformar em gastar seus dias apenas se empanturrando e bebendo com seus amigos em uma estalagem na beira da estrada, distraído entre folguedos esperando a velhice chegar. Pelo contrário, apesar de ainda estar no Condado, ele vive absorto em sonhos e poemas de reinos élficos e de grandiosos homens dos dias antigos.

Igualmente, a alma agora desperta para o milagre que a rodeia já não pode mais se encolher diante da vida e passar seus dias como mais um na multidão. Rica de compreensão espiritual, ainda que esteja aparentemente no mesmo local e praticando as mesmas atividades de antes, ela está fixa em seu novo desígnio: descobrir quem de fato ela é, qual sua origem e o propósito de sua existência.

(Continua…)

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